Você é amado e desejado pela existência!


        Essa angelical consideração acima é de suma importância! 

        Pare e pense só um pouquinho sobre ela. Medite sobre ela. Mas lembre-se de que esse ‘meditar’ não é o verbo com o sentido que Osho o emprega, embora seja a mesma palavra. Aqui significa: "pensar profundamente sobre algo".

        As línguas têm dessas coisas, mas a grande maioria dos falantes nativos de todas a línguas refletem apenas o mínimo de cada palavra. 

        À medida que a evolução da humanidade vai alçando em direção ao infinito, vamos sabendo distinguir os significados mais sutis de cada uma das palavras. Por isso reafirmo que a consideração acima é de suma importância. 

        Nós não precisamos mendigar o amor pois ele já está dentro de nós, pulsando – a existência é feita de amor, amor é existência; ou: Deus é feito de amor, amor é Deus. A maneira de dizer o que estou dizendo é minha, mas quem me ajudou a refletir assim foi Osho. Ora, se a existência não nos tivesse desejado aqui, aqui não estaríamos. Portanto, continuamos não precisando mendigar nada da existência, pois somos o desejo dela. 

        Mas por que ficamos o tempo todo desejando aos outros o que, na verdade, queremos que nos desejem? 

        Neste fim de ano de 1999, tive provas incríveis do nosso mecanismo de desejo. É isso o que quero compartilhar com quem estiver aqui lendo.

        Recebi de vários lados – de vários amigos, conhecidos ou de pessoas em encontros fortuitos –, votos de "feliz natal" e de "feliz ano novo" – agora,  de "feliz milênio" também e indevidamente, pois estamos dando entrada no ano 2004 da chamada Era Cristã. Acho que estão mesmo é comemorando a mudança de todos os números do que convencionamos chamar de ano: de 1999 vamos para 2000, tudo diferente.

        Acho bom que as crianças brinquem de "faz-de-conta-quê", mas esses votos não vêm das crianças, vêm dos supostos adultos – todos gente da melhor qualidade... 

        Agradeci invariavelmente, mas não retribuí, como se espera que uma pessoa educada o faça. Eu dizia apenas "obrigada", já que sou mulher e a minha língua tem o gênero feminino. Qual não era o meu espanto quando a contrapartida era "obrigada" ou "obrigado" também, como se eu tivesse dito "para você também" – o que não posso fazer por não ver mais sentido nesses votos de "boas-festas" ocos, vazios. Houve até alguns mais atrevidos que não viram meu "obrigada" e mandaram de volta: "mas não custa ser educada e agradecer"... – e isso era tudo o que eu tinha feito. 

        Na verdade, as pessoas esperam receber esses votos dos outros, por isso repetem como máquinas a mesma expressão daqui para ali. E esses votos duram, às vezes, até o final dos fogos de artifício na praia, não têm vida longa; outros já saem dando demonstração de nenhum afeto na hora, como essa pessoa que, sem refletir no meu por quê, deu-me uma "lição" de "boa educação". 

        Sou muito exigente sim. Esse tanto eu carrego de consciência, mas não posso viver a vida nos moldes alheios, como já vivi um dia, só para ser vista como "uma pessoa bem-educada". Eu não sou mais. Consegui deseducar-me quase totalmente, mas ainda chegarei lá. 

        Procuro meu coração, onde está o amor que é a existência. E gostaria muito mais do que de gestos amorosos ao meu redor, gostaria de pessoas buscando realmente o próprio coração. 

        Tudo bem, se cada um tem o direito de fazer como quer. Mas aqui eu me incluo, pois também tenho o direito aos meus direitos, e o direito de ter um coração pulsando é meu direito de nascimento, tanto quanto o de todos no planeta. Disso não abro mão, sem nenhuma condescendência. 

        Vejo há mais de sessenta anos as pessoas se desejarem votos de felicidades e nada acontecer de bom para nós. Basta olharmos a vida que levamos entre nós, os que se "amam". Alimentar essa doença nossa é condescender com o que nos derrota. Portanto, meu sonho é que todos um dia descubram que somos responsáveis pela vida que temos, quer armados com armas ou desarmados delas, quer falando em "paz" e escondendo a violência que explode aqui e ali. Atrás da palavra ‘paz’ está a palavra ‘violência’. Quando nunca mais precisarmos de falar essas palavras e/ou expressões – ‘paz’, ‘não-violência’, "diga ‘não’ à violência" "vamos desarmar os espíritos" –, aí, sim, veremos como é bom viver no pleno direito de amor dado pela existência. Até lá, ficaremos nos contentando com natais, anos novos e carnavais. 

        Eu não quero ter felizes natais, nem felizes e prósperos anos novos. Quero que a felicidade brilhe dentro de mim independente do que ocorra fora de mim. Eu não sou os acontecimentos que me cercam, não sou o que penso, não sou o que sinto, não sou o que vejo. 

Quem sou eu?

        Diz-me Osho e todos os que sabem, que eu sou aquilo que vê e não pode ser visto – a existência dentro de mim. Menos que isso, não tenho nenhum outro sonho que me satisfaça. Desejar meditação para todos nós, é desejar o encaminhamento nessa direção, a direção do não-eu, para todos nós.