Eles matam a luxúria com a luxúria

Os que estão mortos
e, ainda assim, completamente vivos
e sabem dos sabores
das sensações
no amor;
Estes cruzarão o rio
de olhos fixos
na corrente da vida e da morte;
eles buscam integridade.
Não têm nenhum desejo
de felicidade absolutamente,
andando contra o vento.

Eles matam a luxúria
com a luxúria
e entram na cidade do amor
desapegados...

        O homem é energia, dinamismo, um processo, um processo muito criativo com mil e uma potencialidades, com infinitas alternativas em aberto. O homem é uma abertura, uma evolução, e com todas as possibilidades que a existência tem. O homem é uma existência em miniatura: uma gota, claro, mas uma gota tem tudo o que o oceano tem; uma gota, claro, mas uma gota consciente. E a consciência é oceânica: ela não conhece fronteiras. Mas o homem do qual estou falando é o homem essencial dos Bauls, adhar manush. Você pode ser isso, mas você não é isso. Você é a semente.
Você pode abri-se e florescer, e liberar seu perfume aos ventos, mas você ainda não é esse homem. Isso tem de ser lembrado.
        Gurdjieff dizia que o homem não nasceu com uma alma: ele tinha de criá-la através do esforço. Um homem nasce somente com uma oportunidade. Ela pode ser usada, ela pode ser desperdiçada. Assim, tudo depende de você. A pessoa tem de se tornar um criador de si mesmo. Os pais lhe deram um corpo e uma possibilidade, mas o real nascimento tem ainda de acontecer. E para esse nascimento verdadeiro, você terá de se tornar sua própria mãe, seu próprio pai. Esse nascimento verdadeiro é uma criatividade íntima. Você tem de ir para dentro para descobrir sua própria fonte de energia, e não somente isso, mas para mudar os canais mecânicos de energia, criar canais conscientes para ela.
Comumente, a energia flui para baixo. É a isso que os Bauls chamam de luxúria. Quando eles chamam isso de luxúria, não estão fazendo uma denúncia, condenando. É apenas um fato, assim como a água flui para baixo. É natural para a água correr para baixo, morro abaixo. Mas a água pode ir para cima - é preciso somente um pouco de calor. A água tem de ser aquecida: ela pode evaporar. A certo grau de calor, uns cem graus, ela começa a subir em direção aos céus. A mesma água que estava sempre morro abaixo começa a ir morro acima. Aconteceu uma conversão; bastava o calor. No Oriente, esse calor é conhecido como tap. A palavra 'tap' significa "calor"; a palavra 'tap' quer dizer "esquentando a si mesmo".

Os Bauls cantam:

Enquanto o desejo queimar nos membros,
ainda há tempo.
Ferva o suco
no fogo do anseio profundo
para condensar o fruto.
A doçura do xarope
fermentará e azedará
a menos que ele seja agitado
sob calor controlado.
As sensações evoluem a partir do desejo,
e o amor se lança à frente da luxúria.

        A luxúria é a mesma energia que a do amor: a diferença é somente de direção. A luxúria se move para baixo, o amor começou a tarefa de ir para cima. A luxúria é como as raízes de uma árvore; o amor é como as asas de um pássaro - mas a energia é a mesma. Toda energia é a mesma.
        A energia como tal é neutra. A menos que você se torne consciente dela, você não pode ser criativo. E o movimento morro abaixo é muito destrutivo: você está simplesmente se dissipando. Não está conseguindo nenhuma integração através dele - o que Gurdjieff chamava de cristalização.
        A todo momento, você tem energia derramando-se sobre você. A existência vai se derramando em você, através do ar, através da água, através do alimento, através dos raios do sol, através do luar, e de mil e uma outras influências sutis. O universo não pára de jorrar sua energia dentro você. O que você está fazendo com essa energia? Está fazendo alguma coisa ou está simplesmente desperdiçando-a? Você está criando algo com ela? Está conseguindo certa integridade, cristalização, a partir dela? Ou ela simplesmente vem de um ponto e se perde no outro?
Há muitas pessoas que são exatamente como um cano: você joga uma coisa de um lado e ela sai pelo outro. Não seja um cano. Quando a energia está em você, faça algo com ela, de modo que algo dela se torne permanente em você. Caso contrário, a vida toda será apenas um cano: comer, defecar; beber, urinar - só um cano. Sucos sutis são criados pela sua energia. Eis o que é o sexo: um suco muito sutil. Agora, o que você está fazendo com ele? Você está fazendo algo com ele, ou o está desperdiçando?
        A luxúria é a mais baixa forma de energia sexual; o amor, a mais alta forma. A menos que sua luxúria se torne amor, você estará perdendo sua meta.

        Gurdjieff costumava dizer que existe certo mecanismo no homem; ele o chamou de "kundabúffer": a kundalíni é um centro, mas ele funciona somente quando a energia vai para cima. O kundabúffer é aquele centro que funciona em você, quando a energia vai para baixo. O kundabúffer tem de ser destruído, dissolvido, desestruturado. Ele é um mecanismo saído da contínua prática de muitas vidas, um mecanismo que surgiu em todo mundo, um canal. No momento em que a energia está pronta, ela simplesmente se move através desse canal. O canal já está ali para tirar a energia do seu ser. Se isso é a verdade e nada mais é possível, então, Jean-Paul Sartre está certo: o homem é uma paixão inútil. Então, por alguns dias, você está vivo na terra, sem fazer nada - comendo coisas, jogando coisas fora; absorvendo coisas, e jogando coisas fora. Então, qual é o sentido disso tudo?
        Mas isso não é tudo. O kundabúffer pode ser dissolvido: esse canal pode ser quebrado. E, uma vez que esse canal seja quebrado, um outro canal começa a funcionar. Ele já está esperando por você. Não que ele já não existisse - ele já existia. Ele veio com você, mas você não o usou ainda. Você não permitiu que a energia fluísse para dentro dele. É claro, é uma tarefa morro acima, é árduo. Ir para baixo é muito fácil; ir para cima necessita muitas coisas: força, consciência, certa vontade, coragem, confiança...

parte II