Primeiro
dia de Osho na escola
Na Índia daqueles tempos, a
estrutura educacional começava com quatro anos de educação primária – era
um fenômeno separado, sob a responsabilidade
das autoridades locais –; depois, mais três anos se você quisesse continuar
na mesma dioreção. Sete anos no total; e, então, você recebia um
certificado. ...
Mas havia um outro modo também, e este foi o que eu segui. Após quatro
anos, você podia ou continuar na mesma linha ou mudar: você podia ir para a
escola secundária. Se você continuasse na mesma linha, você nunca aprenderia
o inglês. A educação primária acabaria depois de sete anos e sua educação
estava completa apenas com a língua local – e, na Índia, há trinta línguas
reconhecidas. Mas, após o quarto ano, havia uma abertura e você podia mudar de
marcha: você podia ir para a escola inglesa – você podia ir para a escola
intermediária, como era chamada.
Novamente, era um curso de quatro anos e, se você continuasse nessa direção,
então, após três anos, você se tornava o que se tornava um “matriculado”.
Meu Deus! Que perda de vida! Todos aqueles belos dias desperdiçados tão
impiedosamente, esmagados! E, quando você se tornava um matriculado, você então
estava apto a ir para a universidade. Novamente, um curso de seis anos! Ao todo,
eu tive de perder quatro anos na escola primária, quatro anos na escola
intermediária, três anos no secundário e seis anos na universidade –
dezessete anos da minha vida!
Eu penso, se posso tirar algum sentido disso tudo, e a única palavra que
me vem, a despeito de Belzebu e seus discípulos fazendo um grande trabalho –
ex-discípulos, quero dizer –, a única palavra que me vem é ‘absurdo’.
Dezessete anos! E eu tinha oito ou nove quando comecei com todo aquele absurdo;
assim, quando deixei a universidade, eu tinha vinte e seis, e fioquei tão
feliz...! – não por ser um medalha de ouro, mas porque finalmente estava
livre. Livre novamente.
Glimpses
of A Golden Childhood, #21
Permaneci na aldeia de meu pai
por onze anos, e fui forçado quase que violentamente a ir para a escola. E
aquilo não era um evento de um dia, era uma rotina diária. A cada manhã eu
era forcado a ir para a escola. Um dos meus tios, ou quem quer que fosse, me
levava até lá, esperava do lado de fora até o professor se apoderar de mim
– como se eu fosse uma mercadoria a ser passada de uma mão a outra, ou um
prisioneiro passando de uma mão a outra. Mas é isso o que a educação ainda
é: um fenômeno violento e forçado.
Cada geração tenta corromper a nova geração. É, certamente, uma espécie
de estupro, um estupro espiritual –
e, naturalmente, quanto mais poderosos, fortes e grandes são o pai e a mãe,
mais podem forçar a criança pequena. Eu fui um rebelde desde o primeiro dia em
que fui levado para a escola. No momento em que vi os portões, perguntei ao meu
pai: “Isso é uma escola ou uma prisão?”.
Meu pai disse: “Que pergunta! É uma escola. Não tenha medo.”.
Eu disse: “Eu não estou com medo, eu estou simplesmente perguntando
para saber qual a atitude que devo tomar. Qual é a necessidade desse portão
imenso?”.
O portão ficava fechado quando todas as crianças, os prisioneiros,
estavam lá dentro. Era somente aberto novamente no final da tarde, quando as
crianças eram liberadas. Eu ainda posso ver o portão. Eu posso ainda me ver de
pé com o meu pai, pronto para me registrar naquela escola horrorosa.
A escola era feia, mas o portão era mais feio ainda. Ele era imenso e
era chamado de “O Portal do Elefante”, Haiti
Dar. Um elefante poderia passar por ele; era
realmente um portão muito largo. Quem sabe teria sido bom para elefantes de
circo – e aquilo era um circo –, mas, para uma criança pequena, era grande
demais.
Eu
terei muitas coisas a lhes dizer sobre aqueles nove anos...
Glimpses
of a Golden Childhood, #19
Estou parado diante do Portal do
Elefante da minha escola primária... e esse portão iniciou muitas coisas na
minha vida. Não estava parado sozinho, é claro: meu pai estava parado comigo.
Ele veio para me matricular na escola. Eu olhei para aqueles portões enormes e
disse a meu pai: “Não.”.
Eu ainda posso ouvir essa palavra. Uma criança pequena que perdeu
tudo... Eu posso ver, na face da criança, um ponto de interrogação, com
ela se perguntando o que iria acontecer.
Eu fiquei olhando para os portões e meu pai me perguntou: “Você está
impressionado com este portão imenso?”.
Agora, tomo a história nas minhas próprias mãos:
Eu disse ao meu pai: “Não.”
Essa foi minha primeira palavra antes de entrar na escola primária, e
vocês ficarão surpresos: ela também foi a minha última palavra ao sair da
universidade. No primeiro caso, meu próprio pai estava comigo. Ele não era
muito velho, mas, para mim, uma criança pequena, ele era velho. No segundo
caso, um homem realmente velho estava ao meu lado, e nós de novo estávamos
parados num portão ainda maior...
O primeiro portão era o Portal do Elefante, e eu estava parado com o meu
pai, sem querer entrar. E o último portão também era um Portal do Elefante e
eu estava parado com o meu velho professor,
não querendo entrar novamente. Uma vez foi o bastante; duas vezes teria sido
demais.
O argumento que tinha começado no primeiro portão durou até o segundo
portão. O “não” que eu disse a meu pai, era o mesmo “não” que
disse ao meu professor, que realmente foi um pai para mim. ...
Aquele “não” tornou-se o meu tom, a
matéria prima de toda a minha existência. Eu disse a meu pai: “Não,
não quero entrar por este portão. Isto não é uma escola, é uma prisão.”.
O próprio portão e a cor do prédio... É esquisito, pois, principalmente na
Índia, as cadeias e as escolas são pintadas da mesma cor e ambas são feitas
de tijolo vermelho. É muito difícil saber se o prédio é uma prisão ou uma
escola. Quem sabe, um dia, um piadista prático tenha logrado seu intento
conseguiu pregando esta peça... e ele o fez perfeitamente.
Eu disse: “Olhe para esta escola! Você chama isso de escola!? Olhe
para este portão! E você está aqui para me forçar a entrar aí, por quatro
anos, pelo menos!”. Este foi o começo do diálogo que durou por muitos anos;
e vocês irão cruzar com ele muitas vezes, porque ele vai e vem através desta
história.
Meu pai falou: “Eu sempre tive medo...” – e nós estávamos parados
no portão, do lado de fora, é claro, porque eu ainda não lhe tinha permitido
levar-me para dentro. Ele continuou: “...eu sempre tive medo que o seu avô e,
principalmente, essa mulher, sua avó, o estragassem.
Eu disse: “A sua desconfiança – ou medo – estava certa, mas o
trabalho foi feito e ninguém pode desfazê-lo; então, por favor, vamos para a
casa.”.
Ele disse: “O quê?! Você tem de ser educado!”.
Eu disse: “Que tipo de começo é este? Eu não sou livre nem para
dizer sim ou não...! Você chama isso de educação? Mas se você a quer assim,
por favor, não me pergunte: aqui está minha mão; arraste-me para dentro. Pelo
menos, vou ter a satisfação de que jamais entrei nesta instituição
horrorosa, por minha conta. Por favor, pelo menos me faça este favor.”.
É claro, meu pai estava ficando muito irritado; então, ele me arrastou
lá para dentro. Embora fosse um homem simples, ele imediatamente compreendeu
que aquilo não estava certo. Ele me disse:
“Embora eu seja seu pai, não me parece certo arrastá-lo até lá
dentro.”.
Eu disse: “Não se sinta culpado, absolutamente. O que você fez está
perfeitamente certo, porque, a não ser que alguém me arraste lá para dentro,
eu não vou por vontade própria.
Minha decisão é “não”. Você pode impor sua decisão sobre mim, porque eu
tenho de depender de você para a comida, as roupas, a casa e tudo mais.
Naturalmente, você está numa posição privilegiada.”.
Que ingresso! – ser arrastado para dentro da escola. Meu pai nunca se
perdoou. No dia em que ele recebeu o sânias, vocês sabem qual foi a primeira
coisa que ele me disse? “Perdoe-me, porque eu fiz muitas coisas erradas com
você. São tantas, que eu não posso nem contar; e deve haver mais, que eu
absolutamente não sei. Perdoe-me.”. ...
Um longo diálogo se iniciou com meu pai naquele dia de ingresso na
escola; e ele continuou de forma intermitente, e terminou somente quando meu pai
se tornou um saniássin. Depois disso, não houve mais nenhuma questão de
argumento – ele tinha se rendido. No dia em que ele recebeu o sânias, ele
estava chorando e segurando os meus pés. Eu estava parado de pé e, podem
acreditar nisto... como um lampejo, a velha escola, o Portal do Elefante, a
pequena criança resistindo, não preparada para entrar, e meu pai a puxando –
tudo veio à tona. Eu sorri.
Meu pai perguntou: “Por que você está sorrindo?”.
Eu disse: “Estou feliz, pois um conflito acabou finalmente.”.
Mas era o que estava acontecendo. Meu pai me arrastando lá para dentro.
Eu nunca fui para escola por minha vontade. ...
Estou feliz de ter sido arrastado para dentro, de nunca ter ido por minha
conta, por vontade própria. A escola era realmente feia – todas as escolas são
feias, na verdade. É bom criar uma situação na qual as crianças aprendam,
mas não é bom educá-las. A educação
está fadada a ser feia.
E qual foi a primeira coisa que vi na escola? A primeira coisa, foi um
encontro com o professor da minha primeira turma. Eu tenho visto gente bonita e
gente feia, mas eu nunca mais vi alguma coisa como aquela novamente – e
sublinhe “alguma coisa”; eu não posso chamar aquela coisa de alguém. Ele não
parecia um homem. Eu olhei para o meu pai e disse: “Foi para isso que você me
arrastou aqui para dentro?”.
Meu pai disse: “Cale a boca!” – bem baixinho, para que “a
coisa” não ouvisse. Ele era o mestre e ia me ensinar. Eu não podia nem mesmo
olhar para o homem. Deus deve ter criado o rosto dele com tremenda pressa.
Talvez sua bexiga estivesse cheia e, só para terminar o serviço, ele fez esse
homem com pressa e saiu correndo para o banheiro. Que homem que ele criou! Ele
tinha um olho só e o nariz encurvado. Aquele único olho era o bastante! Mas o
nariz encurvado, realmente, adicionou uma grande feiura ao rosto. E ele era
imenso! – dois metros e trinta de altura; ele devia pesar, pelo menos, uns
cento e oitenta quilos, não menos que isso.
Como estas pessoas desafiam a pesquisa médica!? Cento e oitenta quilos,
e ele estava sempre saudável. Ele nunca tirou um dia de folga, nunca foi a um médico.
Por toda a cidade, dizia-se que aquele homem era feito de aço. Talvez fosse,
mas não de um aço muito bom – mais parecido com arame farpado! Ele era tão
feio, que eu não quero falar nada dele, embora tenha que dizer umas poucas
coisas, mas, pelo menos, não sobre ele diretamente.
Ele foi o meu primeiro mestre, quero dizer, professor. Porque, na Índia,
professores de escolas são chamados de “mestres”; foi por isso que disse
que ele foi meu primeiro mestre. Até mesmo agora, se eu visse aquele homem
novamente, eu ia começar a tremer. Ele não era um homem, absolutamente; ele
era um cavalo!
Eu disse a meu pai: “Primeiro olhe para esse homem antes de
assinar.”.
Ele disse: “O que tem de errado com ele? Ele me ensinou, ele ensinou ao
meu pai – ele tem ensinado aqui por gerações.”.
Sim, isso era verdade. É por isso que ninguém reclamava dele. Se você
reclamasse seu pai diria: “Eu não posso fazer nada, ele foi meu professor
também. Se eu for reclamar com ele, ele pode até mesmo me punir.”.
Aí meu pai disse: “Nada está errado com ele, ele é correto.”. Então,
ele assinou os papéis.
Eu então disse a meu pai: “Você está assinando problemas para si
mesmo; não me culpe depois.”.
Ele disse, “Você é um garoto estranho mesmo!”.
Eu disse: “Certamente, nós somos estranhos um para o outro. Eu vivi
separado de você durante muitos anos; e minha amizade tem sido com as
mangueiras e os pinheiros e as montanhas, os oceanos e os rios. Eu não sou um
negociante, e você é. Dinheiro significa tudo para você; eu não posso nem
mesmo contar o dinheiro.”.
Eu disse a meu pai: “Você entende de dinheiro, e eu não. Nossas línguas
são diferentes; e lembre-se: foi você quem me impediu de voltar à aldeia; então
agora, se há um conflito, não me censure. Eu entendo de algo que você não
entende; e você entende de algo que eu não entendo e nem quero entender. Nós
somos incompatíveis. Dada, nós não fomos feitos um para outro.”.
E ele levou quase toda a sua vida para cobrir a distancia entre nós,
mas, é claro, era ele quem tinha de
fazer o percurso. É isso o que eu quero dizer quando digo que sou teimoso. Eu não
pude arredar pé uma polegada sequer, e tudo começou naquele Portal do
Elefante.
O primeiro professor – eu não sei o seu nome verdadeiro e, na escola,
ninguém também sabia, principalmente as crianças; elas simplesmente o
chamavam de Mestre Kantar. ‘Kantar’ significa “aquele que tem só um olho”; isso era o
bastante para as crianças e era, também, a condenação dele. Em híndi, ‘kantar’
não significa apenas caolho: essa palavra também é usada como uma maldição.
Ela não pode ser traduzida dessa maneira, porque a nuança fica perdida na
tradução. Assim, nós todos o chamávamos de Mestre
Kantar na presença dele, e, quando ele não estava presente, nós o chamávamos
apenas de Kantar – o caolho.
Ele não era somente feio; tudo o que ele fazia era feio. E, é claro, no
meu primeiro dia, algo estava fadado a acontecer. Ele punia as crianças sem
piedade. Eu nunca vi, nem ouvi falar de alguém fazendo tais coisas a crianças.
Eu conheci muitas pessoas que deixaram a escola por causa daquele sujeito; e
elas ficaram sem educação. Ele era demais. Vocês não acreditariam no que ele
fazia, ou que qualquer homem pudesse fazer aquilo. Eu vou explicar a vocês o
que me aconteceu naquele primeiro dia – e muito mais estava para se seguir.
Ele estava
ensinando aritmética. Eu sabia um pouco, porque a minha avó me ensinava um
pouco em casa – principalmente um pouco de linguagem e alguma aritmética. Então,
eu estava olhando pela janela, para a linda árvore pipal brilhando ao
sol. Não existe nenhuma outra árvore que brilhe tão lindamente ao sol, porque
cada folha dança separadamente, e toda a árvore quase que se torna um coro –
milhares de bailarinos e cantores brilhantes reunidos, mas ao mesmo tempo
independentes.
A árvore pipal é uma árvore muito estranha, porque todas as
outras árvores inalam dióxido de carbono e exalam oxigênio durante o dia...
Seja o que for, vocês podem escrever certo, porque vocês sabem que eu não sou
uma árvore, nem sou um químico ou um cientista. Mas a árvore pipal exala oxigênio
vinte e quatro horas por dia. Você pode dormir debaixo da árvore pipal, mas não
pode debaixo de nenhuma outra, porque elas são perigosas para a saúde. Eu
olhava para a árvore com as suas folhas dançando na brisa, com o sol brilhando
em cada folha e centenas de papagaios saltando de um galho para outro,
divertindo-se sem nenhuma razão. Pobre de mim! Eles não tinham de ir para a
escola.
Eu estava olhando para fora da janela e mestre Kantar saltou em cima de
mim.
Ele disse: “É melhor deixar as coisas claras desde o começo.”.
Eu disse: “Eu concordo absolutamente com isso. Eu também quero deixar
as coisas em seus devidos lugares desde o começo.”.
Ele disse: “Por que você está olhando para fora da janela, enquanto
eu estou ensinando aritmética?”.
Eu disse: “Aritmética tem de ser ouvida, não vista. Eu não tenho de
olhar o seu belo rosto. Eu estava olhando pela janela para evitá-lo. No que
concerne à aritmética, você pode me perguntar; eu ouvi e eu sei.”.
Ele me perguntou, e isso foi o começo de uma trapalhada enorme – não
para mim, mas para ele. A trapalhada foi que eu respondi corretamente. Ele não
podia acreditar e disse: “Quer você esteja certo ou errado, eu vou puni-lo de
qualquer forma, porque não é certo
olhar para fora da janela, quando o professor está ensinando.”.
Eu fui chamado à sua frente. Eu tinha ouvido sobre as suas técnicas de
punição – ele era um homem como o Marques de Sade. Da sua mesa, ele pegou
uma caixa de lápis. Eu tinha ouvido falar sobre aqueles famosos lápis. Ele
colocava um daqueles lápis entre cada um dos seus dedos e, depois, apertava sua
mão com força, perguntando: “Você quer um pouco mais? Você precisa de
mais?” Isso com crianças pequenas! Ele era, certamente, um fascista. Eu estou
fazendo esta declaração, para que fique, pelo menos, registrada:
as pessoas que escolhem ser professor, têm algo de
errado nelas. Talvez seja o desejo de dominar, ou uma sede de poder; talvez,
sejam todos um pouco fascistas.
Eu olhei para os lápis e disse: “Eu ouvi falar desses lápis, mas,
antes que você os coloque entre os meus dedos, lembre-se: vai custar-lhe muito
caro, talvez, até mesmo o seu emprego.”.
Ele riu. Posso dizer a vocês que era como um monstro em um pesadelo
rindo para você. Ele disse: “Quem vai me deter?”.
Eu disse: “Essa não é a questão. Eu quero perguntar: é ilegal olhar
para fora da janela, quando alguém está ensinando aritmética? E, se eu sou
capaz de responder as perguntas sobre o que está sendo ensinado e estou pronto
a repeti-lo palavra por palavra, então, é de algum modo errado olhar para fora
da janela? Então, porque a janela foi feita nesta sala de aula? Com que propósito?
– porque, durante o dia todo, alguém está ensinando alguma coisa, e uma
janela não é necessária durante a noite quando não há ninguém para olhar
através dela.”.
Ele disse: “Você é um criador de caso!”.
Eu disse: “Isso é absolutamente verdadeiro, e eu vou ao diretor para
descobrir se é legítimo o senhor me punir quando eu lhe respondi
corretamente.”.
Ele ficou um pouco mais brando. Eu fiquei surpreso, porque eu tinha
ouvido dizer que ele não era um homem que pudesse ser subjugado, de modo algum.
Então, eu disse: “E, depois, irei ao presidente do comitê municipal
que administra esta escola. Amanhã eu virei com um comissário de polícia, de
modo que ele possa ver com os próprios olhos que tipo de práticas estão
ocorrendo aqui.”.
Ele tremeu. Não foi visível para os outros, mas eu posso ver coisas que
outras pessoas podem perder. Eu posso não ver muros, mas eu não posso perder
as pequenas coisas, as quase microscópicas. Eu lhe disse: “O senhor está
tremendo, embora o senhor não seja capaz de admitir. Mas nós veremos.
Primeiro, deixe-me ir ao diretor.”.
Eu fui e o diretor disse: “Eu sei que esse homem tortura crianças. É
ilegal, mas eu não posso falar nada sobre isso, porque ele é o professor mais
velho da cidade, e quase todos os
pais e avós foram seus alunos, pelo menos, uma vez. Então, ninguém pode
levantar um dedo contra ele.”.
Eu disse: “Eu não me importo. Meu pai foi seu aluno e meu avô também.
Eu não me importo nem com meu pai, nem com meu avô; na verdade, eu realmente não
pertenço àquela família. Eu tenho vivido afastado deles. Sou um estrangeiro
aqui.”.
O diretor disse: “Eu pude ver imediatamente que você devia ser um
estranho; mas, meu rapaz, não arranje confusão desnecessariamente. Ele vai
torturá-lo.”.
Eu disse: “Isso não é fácil. Deixe este ser o começo da minha luta
contra todas as torturas. Eu vou
lutar.”.
E bati com o meu punho – é
claro, o punho de uma criança pequena – na mesa dele, e
disse-lhe: “Eu não me importo com educação, ou com qualquer coisa,
mas eu devo cuidar da minha liberdade. Ninguém pode me atormentar
desnecessariamente. Você tem de me mostrar o código educacional. Eu não posso
ler e você terá de me mostrar se
é ilegal olhar para fora da janela, mesmo tendo respondido às perguntas
corretamente.”.
Ele disse: “Se você respondeu corretamente, então, não importa para
onde você estava olhando.”.
Eu disse: “Venha comigo.”.
Ele foi com o seu código educacional, um livro antigo que ele carregava
sempre. Eu não acho que alguém já o tivesse lido. O diretor
disse ao mestre Kantar: “É melhor não atormentar este menino, porque
parece que ele vai revidar. Ele não vai desistir facilmente.”.
Mas o mestre Kantar não era desse tipo de homem. Com medo, ele se
tornava até mais agressivo e violento. Ele disse: “Eu vou mostrar a esse
menino – você não precisa se preocupar. E quem se importa com esse código?
Eu tenho sido professor aqui durante minha vida inteira, e é esse menino que
vai me ensinar o código?!”.
Eu disse: “Amanhã, ou eu estarei neste prédio ou o senhor, mas nós
dois não podemos ficar aqui juntos. Espere até amanhã.”.
Eu corri para casa e contei a meu pai. Ele disse: “Eu estava
preocupado, pensando se eu devia colocá-lo na escola, para você causar
problemas para os outros e para você mesmo e também para acabar envolvendo-me
neles.”.
Eu disse: “Não, eu estou simplesmente relatando, de modo que, mais
tarde, o senhor não diga que não sabia de nada.”.
Eu fui ao comissário de polícia. Ele era um homem encantador; eu não
esperava que um policial pudesse ser tão delicado. Ele disse: “Ouvi falar a
respeito desse homem. Na verdade, meu próprio filho tem sido torturado por ele.
Mas ninguém reclamou. É ilegal torturar, mas, a não ser que você dê parte,
nada pode ser feito; e eu mesmo não posso dar parte, porque fico preocupado que
ele possa reprovar o meu filho. Então é melhor deixar que ele continue
torturando. É só uma questão de poucos meses, depois, meu filho mudará de
turma.”.
Eu disse: “Estou aqui para dar parte e não estou nem um pouco
preocupado sobre o fato de eu ir para outra turma. Estou pronto para ficar nesta
turma por toda a minha vida.”.
Ele me olhou, bateu de leve nas minhas costas e disse: “Eu aprecio o
que você está fazendo.”.
Então, eu corri para ver o presidente do comitê municipal, que provou
ser apenas um estrume de vaca. Sim, apenas estrume de vaca e nem mesmo seca –
tão feio! Ele me disse: “Eu sei. Nada pode ser feito quanto a isso. Você tem
de conviver com isso, você terá de aprender como tolerar isso.”.
Eu lhe disse – e lembro-me
de minhas palavras exatamente: “Eu não vou tolerar nada que seja errado para
a minha consciência.”.
Ele disse: “Se este é o caso, eu não posso resolver. Vá ao
vice-presidente, quem sabe ele possa ser de maior ajuda.”.
E por isso eu posso agradecer àquele estrume de vaca, porque o
vice-presidente da aldeia, Shambhu Dube, provou ser o único homem digno em toda
aquele lugar, dentro da minha experiência. Quando eu bati na sua porta – eu
tinha apenas oito ou nove anos de idade e ele era o vice-presidente – ele me
mandou entrar. Ele esperava ver um
cavalheiro e, ao me ver, ele ficou um pouco embaraçado.
Eu disse: “Eu sinto muito de não ser um pouco mais velho – por
favor, me desculpe. Além do mais, eu não sou educado, absolutamente, mas
tenho de me queixar daquele homem, mestre Kantar.”.
No momento em que ele ouviu a minha história
– que aquele homem torturava crianças pequenas no primeiro ano,
colocando lápis entre os dedos delas e, depois, apertando-os; e que ele tinha
alfinetes que empurrava debaixo das unhas; e que ele era um homem de mais de
dois metros de altura, pesando quase duzentos quilos – ele não pôde
acreditar.
Ele disse, “Eu ouvi rumores, mas... por que ninguém reclamou?”.
Eu disse: “Porque as pessoas temem que seus filhos sejam torturados
ainda mais.”.
Ele disse: “Você não tem medo?”.
Eu disse: “Não, porque eu estou pronto para ser reprovado. É tudo o
que ele pode fazer.”. Eu disse que estava pronto para ser reprovado e que não
estava perseguindo o sucesso, mas que lutaria até o fim: “Será ele ou eu –
nós dois não poderemos ficar lá no mesmo prédio.”.
Shambhu Dube me chamou para perto dele. Segurando minha mão, ele disse:
“Eu sempre amo as pessoas rebeldes, mas nunca pensei que uma criança da sua
idade pudesse ser um rebelde. Dou-lhe os parabéns.”.
Nós nos tornamos amigos e essa amizade durou até a morte dele. Aquela
aldeia tinha uma população de vinte mil pessoas, mas, na Índia, ela ainda é
uma aldeia. Na Índia, a não ser que a cidade tenha cem mil habitantes, não é
considerada uma cidade. Quando há mais de cento e cinqüenta mil pessoas, então,
é uma cidade. Em toda minha vida, eu nunca encontrei naquela aldeia outra
pessoa do mesmo calibre, da mesma qualidade, ou de talento como Shambhu Dube. Se
você me perguntar, parecerá um exagero, mas, na verdade, em toda a Índia, eu
nunca mais encontrei um outro Shambhu Dube. Ele era simplesmente raro.
Ele simplesmente me amava, e esse amor começou naquele encontro,
naquele dia em que fui protestar contra Mestre Kantar.
Shambhu Dube era o vice-presidente do comitê municipal, e ele me disse:
“Não se preocupe. Aquele sujeito deve ser punido. Na verdade, o serviço dele
acabou. Ele pediu um prolongamento, mas nós não o daremos a ele. A partir de
amanhã, você não mais o verá naquela escola.”.
Eu perguntei: “Isso é uma promessa?”.
Nós nos olhamos nos olhos. Ele sorriu e disse: “Sim, é uma
promessa.”.
No dia seguinte, mestre Kantar foi embora. Ele nunca mais foi capaz de me
olhar depois daquilo. Eu tentei contatá-lo, bati na porta dele muitas vezes,
somente para dizer adeus, mas ele era realmente um covarde, uma ovelha sob a
pele de leão. Mas aquele primeiro dia na escola transformou-se no início de
muitas, muitas coisas.
Glimpses
of a Golden Childhood, #20
Mestre Kantar nunca mais foi
visto na escola. Ele foi imediatamente dispensado, porque só faltava um mês
para a sua aposentadoria e o seu pedido de extensão foi cancelado. Isso
provocou uma grande celebração em toda a aldeia. Mestre Kantar tinha sido um
grande homem naquela aldeia; contudo, eu consegui que o expulsassem em um único
dia. Isso foi alguma coisa. As pessoas começaram a me respeitar. Eu dizia:
“Que absurdo! Eu não fiz nada – eu simplesmente trouxe à luz o homem e
seus erros.”.
Fico surpreso como ele pôde torturar crianças pequenas por toda a sua
vida. Mas era isso o que se achava ser a educação. Pensava-se então, e muitos
indianos ainda pensam, que, a não ser que se torture uma criança, ela não
pode aprender – embora eles não o digam tão claramente.
Glimpses
of a Golden Childhood, # 21