Osho, o que é a angústia? É apenas um outro nome para a ansiedade?

    A angústia tem algo da ansiedade, mas ela não é apenas ansiedade. É muito mais, muito mais profunda.
 
    Ansiedade quer dizer que você está preocupado com um determinado assunto, num estado de indecisão. Você não sabe se deve ou não fazer certa coisa, qual será a forma certa de fazê-la, o que escolher... – há tantas formas. Você está sempre numa encruzilhada. Todos as formas parecem similares; certamente, levando a algum lugar. Mas será que levam à meta que você está aspirando?
 
    A ansiedade é essa condição de fazer ou não fazer, de escolher isto ou escolher aquilo. Mas o objeto da ansiedade é claro: você está indeciso sobre as formas de fazer, indeciso sobre duas pessoas, indeciso sobre dois empregos.
 
    A angústia não tem nenhum objeto determinado.
 
    A angústia é sentida por pessoas muito raras. A ansiedade é sentida por todos: trata-se de uma experiência comum. A angústia é sentida somente pelos gênios, pelos mais altos picos de inteligência. Ela não tem nenhum objeto determinado: não há nada para você escolher entre duas alternativas, nenhum “isto ou aquilo”. Não existe nenhuma questão de escolha. Então, qual é o problema com a angústia? 

   Vou tentar explicar.

   (...)
 
    No homem, a existência precede a essência. Primeiramente, ele nasce e, depois, ele começa a descobrir o que ele pode ser. Essa é a angústia.
 
    Ele não tem nenhum programa, nenhuma diretriz determinada, dada pela natureza, nenhum mapa a seguir. Ele é deixado apenas como pura existência. Ele tem de descobrir tudo sobre si mesmo. A vida é um desafio a cada momento; assim, a todo momento ele tem de escolher. Sempre que ele tem de escolher, há ansiedade – mas a ansiedade é particular.
 
    A angústia é uma estado geral do ser humano. Ele está em angústia desde o nascimento até a morte, porque ele não tem meio de saber qual é o seu destino, onde ele irá parar.
 
    É claro, muito poucas pessoas sentem angústia, porque muito poucas pessoas são assim tão cônscias de si mesmas, de suas existências, de para onde estão indo, do que estão se tornando, do que vai acontecer. Elas vivem muito interessadas no trivial.

    O trivial cria ansiedade.
 
    E sempre que há escolha, há ansiedade.
 
    Assim, todo mundo, a cada passo, a cada momento de sua vida, encara a ansiedade. A ansiedade é comum, um acontecimento diário.
 
    A angústia é muito profunda.
 
    As duas palavras vêm da mesma raiz; daí, a questão. Na angústia, há alguma ansiedade, porque você está preocupado, interessado. Mas o interesse não é relativo a qualquer trabalho, a qualquer coisa, a qualquer coisa em particular. Não. É uma vaga sensação geral de: “Quem sou eu?”.
 
    (...)
 
    Você está ciente da ansiedade. Mas você não está ciente da angústia ainda.
 
    Em primeiro lugar, quando você sentir angústia, você sentirá em tremendo tormento, uma profunda depressão... – um abismo insondável se abrindo diante de você, e você caindo nele. É terrível no começo, mas somente no começo.
 
    Se você puder ser paciente, só um pouquinho paciente, e permitir o que quer que aconteça, logo, logo, você ficará ciente de uma nova qualidade em seu ser: tudo o que está acontecendo está ao seu redor, não está acontecendo em você. É algo externo, não interno. Até mesmo sua própria mente é algo do exterior.
 
    No centro mais recôndito, há somente uma coisa. Esta coisa é: o testemunhar, a observação, a atenção, a consciência.
 
    E é a isso que chamo de meditação.
 
    Sem a angústia você não pode meditar.
 
    Você tem de passar através do fogo da angústia. Ele queimará o lixo e o deixará mais limpo e rejuvenescido.
 
    E o seu ser não está muito distante. Ele está aí, muito perto, mas simplesmente o zumbido de todos os pensamentos não lhe permite ouvi-lo, vê-lo, senti-lo.
 
    A angústia é a indagação dentro da própria pessoa, pondo a interrogação nela mesma.
 
    Vocês têm perguntado coisas como “quem é Deus?” e “quem criou o mundo?”. Todas essas perguntas são apenas para mentes retardadas. Uma mente madura tem somente uma questão. Nem mesmo duas, apenas uma única questão: “Quem sou eu?”.
 
    E isso também você não tem de perguntar verbalmente, você tem apenas de estar no estado de questionamento. Você não tem de repetir “quem sou eu?”, você tem apenas de estar presente, atento, olhando... não perguntando verbalmente, mas perguntando existencialmente.
 
    E essa questão existencial é terrível no começo, dolorosa no começo, mas traz todas as bênçãos no final.
 
    Gautama, O Buda, disse: “Meu caminho no começo é amargo, mas no fim é muito doce.”.
 
    Que caminho? Ele não está falando sobre a religião budista – embora seja dessa forma que os monges budistas irão interpretar. Ele está falando sobre o caminho do qual eu estou falando – o caminho que o leva para dentro.
 
    Sim, ele é amargo no começo, mas doce no fim. Ele é como a morte no começo e é a vida eterna no fim.
 
 
 

 
                                         
 Osho, From Personality to Individuality, # 6