Apego e sensibiliodade
Osho, com o aprofundamento da meditação, a pessoa se torna cada vez mais e mais sensível aos objetos, aos eventos e às pessoas. Mas devido a esta elevação da sensibilidade, a pessoa sente uma espécie de profunda intimidade com tudo, e isto normalmente se torna a causa de apegos sutis. Como ser sensível e, ainda assim, desapegado?
Como ser sensível e, ainda assim, desapegado? Essas duas coisas não são contrárias, elas não são opostas. Se você estiver mais sensível, você estará desapegado; ou, se você estiver desapegado, você se tornará mais e mais sensível. Sensibilidade não é apego, sensibilidade é percepção. Somente uma pessoa perceptiva pode ser sensível. Se você não for perceptivo, você será insensível. Quando você é inconsciente, você é totalmente insensível - quanto mais consciência, mais sensibilidade. Um buda é totalmente sensível, ele tem máxima sensibilidade, porque ele sentirá e estará ciente de sua total capacidade. Quando você é sensível e consciente, você não pode ser apegado. Você será desapegado, porque o próprio fenômeno da consciência quebra a ponte, destrói a ponte, entre você e as coisas, entre você e as pessoas, entre você e o mundo. A inconsciência, a falta de perceptividade, é a causa do apego.
Se você está alerta, a ponte de repente desaparece. Quando você fica alerta não há nada que ligue você ao mundo. O mundo existe, você existe, mas entre os dois a ponte desapareceu. A ponte é feita de sua inconsciência. Assim sendo, não pense que você se ficou apegado porque você está mais sensível. Não. Se você estiver mais sensível, você não ficará apegado. O apego é uma qualidade muito grosseira, não é sutil. Para o apego, você não precisa estar consciente e alerta. Não há nenhuma necessidade. Até os animais podem se apegar muito facilmente, até mais facilmente. Um cão é mais apegado ao seu dono do que qualquer homem pode ser. O cão é completamente inconsciente, então o apego acontece. Eis por que nos países onde os relacionamentos humanos se tornaram pobres, como no Ocidente, o homem continua procurando relacionamento com os animais, porque os relacionamentos humanos não existem mais. A sociedade humana está desaparecendo e todo homem se sente isolado, alienado, sozinho. A multidão existe, mas você não está relacionado com ela. Você está sozinho na multidão e esta solidão apavora. A pessoa se torna amedrontada e temerosa.
Quando você está relacionado, apegado a alguém, e alguém está apegado a você, você sente que você não está sozinho no mundo, neste mundo estranho. Alguém está com você. Essa sensação de pertencer lhe dá uma espécie de segurança. Quando o relacionamento humano se torna impossível, então os homens e as mulheres tentam se relacionar com animais. No Ocidente, eles vivem muito profundamente relacionados a cães e a outros animais, mas, aqui no Oriente, embora você possa estar reverenciando as vacas, você não tem relação com elas. Você pode continuar dizendo que você reverencia a vaca como um animal divino, mas sua crueldade não tem fim.
No Oriente, você é tão cruel com os animais, que o Ocidente não pode sequer conceber como você pode continuar pensando que você é não-violento. Por todo o mundo, principalmente no Ocidente, há muitas sociedades para proteger os animais contra a crueldade dos homens. Você não pode bater num cão no Ocidente. Se você bater nele, será um ato criminoso e você será punido por isso. O que está acontecendo realmente, é que o relacionamento humano está se dissolvendo - mas o homem não pode viver sozinho. Ele tem de ter um relacionamento, sentir que pertence, ter uma sensação de que alguém está com ele. Os animais podem ser muito bons amigos, porque eles ficam se apegam muito; ninguém, nenhum homem, pode se apegar dessa forma.
Para o apego, a consciência não é necessária; ao contrário, a consciência é a barreira. Quanto mais consciente você se torna, menos você será apegado, porque a necessidade de apego desaparece. Por que você quer estar apegado a alguém? Porque sozinho você sente que você não se basta. Você sente falta de alguma coisa. Algo fica incompleto em você. Você não é inteiro. Você precisa de alguém para completá-lo. Daí, o apego. Se você está consciente, você está completo, você é inteiro - o círculo está completo agora, não está faltando nada em você - você não precisa de ninguém. Você, sozinho, sente uma total independência, uma sensação de inteireza.
Isso não quer dizer que você não amará as pessoas; ao contrário, somente você pode amar. Uma pessoa que seja dependente de você não pode amá-lo: ela o odiará. Uma pessoa que precisa de você não pode amá-lo. Ela o odiará, porque você se torna o cativeiro. Ela sente que sem você ela não pode viver, sem você ela não pode ser feliz, então, você é a causa das duas coisas, da felicidade e da infelicidade dela. Ela não pode se dar ao luxo de perdê-lo e isso lhe dará uma sensação de aprisionamento: ela é sua prisioneira e se ressentirá disso; ela lutará contra isso. As pessoas odeiam e amam ao mesmo tempo, mas este amor não pode ser muito profundo. Somente uma pessoa que seja consciente, pode amar, porque esta pessoa não precisa de você. Mas então o amor tem uma dimensão totalmente diferente: ele não é apego, ele não é dependência. A pessoa não é sua dependente e não o fará dependente dela: a pessoa permanecerá uma liberdade e lhe permitirá permanecer uma liberdade. Vocês serão dois agentes livres, dois seres totais, inteiros, se encontrando. Esse encontro será uma festividade, uma celebração - não uma dependência. Esse encontro será uma alegria, uma brincadeira.
Osho, The Book of the Secrets, # 73