Você pode ver a beleza?
Na sarjeta do mercado jazia um cão morto, para desgosto dos que passavam. "Que repugnante!" - disse um, e virou a cabeça para o outro lado. "Puxa! Como fede!" - disse um outro e tapou o nariz enquanto passava. "Olha as tripas saindo... Que horror! Que nojo!" - disse um terceiro. "Ele não tem nem pele suficiente na carcaça para se fazer nem um cordão de sapatos!" - disse um quarto. "Não admira que tenha chegado a esse fim..." - disse um quinto.
Então, uma voz repreensiva suave, interrompeu o coro de calúnias, dizendo: "Nem as pérolas não são equivalentes à brancura dos seu dentes!". E as pessoas se dispersaram cochichando: "Claro, aquele deve ser Jesus, pois quem mais diria uma palavra boa para um cão morto!?"
Eis o verdadeiro espírito de Jesus. Ele amou o mundo tão totalmente, que não podia descobrir nenhum mal em qualquer lugar. Ele amou o mundo tão totalmente, que nada era feio para ele - tudo era transformado numa luminosa beleza.
A existência é o que você projeta nela. A existência reflete você. Se você tem feiúra no seu coração, você a verá em toda parte. Se seu coração é inocente, você verá uma existência virgem. Você continua ouvindo seus próprios ecos.
O verdadeiro santo é aquele que não pode descobrir o pecador no mundo. Mas seus assim chamados santos são apenas 'assim-chamados'. O mundo todo torna-se cheio de pecadores para eles; eles existem na condenação. Quanto mais eles condenam as pessoas, mais alto eles sentem que estão; quanto mais eles as abaixam, melhor para seus egos sentirem-se gratificados.
Lembre-se disso: um verdadeiro santo jamais encontra um pecador. Mesmo se ele buscar, ele não vai descobrir nenhum. Esta é a definição de um santo verdadeiro: aquele que não pode descobrir nada feio na existência, para quem toda a existência está transformada, encantada. Ela é inacreditavelmente bela, ela é totalmente beleza.
No momento em que a existência se tornar totalmente bela para você, você terá conhecido Deus. Deus não é uma pessoa; você jamais o encontrará em nenhum lugar. Ele não tem forma, nenhum nome. Deus é uma presença, mas a presença só pode ser sentida por aqueles que têm esta sensibilidade estética, esta consciência estética...
Jesus pôde ver no cão morto algo imensamente belo. Ele disse: "Nem as pérolas não são equivalentes à brancura de seus dentes.". Naquela brancura, Deus apareceu. Naquela brancura, a presença foi sentida. E você nem pode vê-la num belo pôr-do-sol! E você nem pode vê-la numa rosa! Você nem pode vê-la num rosto de uma bela mulher ou de um belo homem! Você nem pode vê-la nos olhos inocentes das crianças! E você continua buscando nas igrejas e nos templos e nas mesquitas. Toda a sua busca é vã.
Religião não é nada mais do que alcançar consciência sensitiva tão grande, que tudo é transformado em inacreditável beleza. A beleza é Deus.
Osho, Philosophia Perennis, Vol. 1, # 5