Você é a causa

        Nós muito freqüentemente sentimos que criamos nossos próprios sofrimentos. Apesar disso, por que continuamos a criá-los? E quando e como a pessoa pára de criar os próprios sofrimentos dela?

        A primeira coisa e muito básica de se compreender é que sempre que você diz "nós muito freqüentemente sentimos que criamos nossos próprios sofrimentos", esse não é o caso. Você nunca realmente sente que você é o criador de seus próprios sofrimentos. Você pode pensar assim, porque lhe foi ensinado assim; porque, durante séculos e séculos, os mestres ensinaram isso, que você é o criador de seus próprios sofrimentos e ninguém mais é responsável. Você ouviu essas coisas, você leu essas coisas. Elas se tornaram seu sangue e ossos, elas se tornaram seus condicionamentos inconscientes. Assim, às vezes, você repete como um papagaio: "Nós criamos nosso próprio sofrimento". Mas este não é o seu sentimento, esta não é a sua percepção, porque, se você percebesse isso, então, a outra coisa seria impossível. Então, você não mais poderia dizer: "Apesar disso, por que continuamos a criá-los?".
        Se você realmente sente, e se isso for seu próprio sentimento, que você é o criador do seu próprio sofrimento, a qualquer momento você pode parar - a menos que você queira criá-lo, a menos que você goste dele, a menos que você seja um masoquista... Então está tudo certo, então não há nenhuma pergunta. Se você diz "eu gosto do meu sofrimento", então, está certo: você pode continuar criando-o. Mas se você diz "eu sofro e quero ir além disso. Quero parar com isso completamente - e eu compreendo que sou eu o criador", então, você está errado. Você não compreende.
        (...)
        Você deve ter ouvido que você é o criador de seus próprios sofrimentos, mas isto está apenas na mente. Ainda não entrou em seu ser, não é seu próprio conhecimento. Assim, quando você está discutindo, você pode discutir sobre isso cerebralmente, mas, quando o verdadeiro fenômeno acontecer, você se esquecerá e se comportará do jeito que você sabe, não do jeito que os outros sabem.
        (...)
        Conhecimento verdadeiro significa aquilo que lhe aconteceu. Você não ouviu dizer sobre aquilo, nem leu sobre aquilo, você não juntou informações sobre aquilo - aquilo é sua experiência própria. E, então, não há nenhuma pergunta, porque, depois disso, você não pode mais ir contra aquilo. Não que você tenha de fazer algum esforço para não ir contra aquilo: simplesmente, você não pode ir contra aquilo.
        (...)
        Você tem que fazer uma distinção nítida entre o que você sabe e o que você colecionou como conhecimento. Não se apóie em informação. Da maior fonte - mesmo que você colecione da maior fonte - informação é informação. Mesmo que Buda passe-a para você, não é conhecimento seu, e ela não vai ajudá-lo de modo algum. Mas você pode permanecer pensando que aquilo é conhecimento seu, e essa incompreensão vai desperdiçar sua energia, seu tempo e sua vida.

        A coisa básica é não perguntar o que fazer para que o sofrimento não seja criado. A coisa básica é saber que você é o criador do seu sofrimento. Da próxima vez, quando uma situação de verdade surgir e você estiver sofrendo, lembre-se de descobrir se você é a causa dele. E, se você puder descobrir que você é a causa dele, o sofrimento desaparecerá, e o mesmo sofrimento não aparecerá novamente - impossível.
        Mas não engane a si mesmo. Você pode se enganar - eis por que eu digo isso. Quando você está sofrendo, você pode dizer "Sim, eu sei que tenho criado este sofrimento", mas lá no fundo você sabe que alguém mais o criou. Sua esposa o criou, seu marido o criou, e isso é simplesmente um consolo, porque você não pode fazer nada. Você se consola: "Ninguém o criou, eu mesmo o criei, e em pouco tempo eu o farei parar.".
        Mas conhecimento é transformação instantânea: não tem "em pouco tempo". Se você compreende que é você que o tem criado, ele cairá imediatamente. E aquilo não surgirá novamente. Se vier novamente, significa que a compreensão não foi muito fundo.
        Assim, não há necessidade de descobrir o que fazer, e como parar. A única coisa necessária é ir fundo e descobrir quem é realmente o causador daquilo. Se os outros são a causa, então, não pode ser extinguido, porque você não pode mudar o mundo todo. Se você é a causa, somente então, aquilo pode ser parado.
        Eis por que eu insisto em que somente a religião pode conduzir a humanidade em direção ao não-sofrimento. Nada mais pode conduzir, porque todo mundo acredita que o sofrimento é causado pelos outros; somente a religião diz que o sofrimento é causado por você mesmo. Assim, a religião faz de você o mestre do seu destino. Você é a causa do seu sofrimento, desse modo, você pode ser a causa da sua bem-aventurança.

Osho,The Book of the Secrets, # 50