O que é dar e o que é receber

 

     Amado Osho

     Osho, o que é dar e o que é receber? Eu compreendo agora que estou somente começando a vislumbrar essas coisas. Receptividade me parece como morrer e, automaticamente, por dentro, tudo dá sinal vermelho de alerta! Socorro! A exoistência parece tão gigantesca!  

            O que Dhiresha está dizendo é tremendamente importante de ser compreendido. Ela está perguntando “o que é dar?”. Alguma vez você já se perguntou o que é dar? Você já acha que está dando demais a seus filhos, à sua esposa, à sua namorada, à sociedade, ao Rotary Clube, ao Lions Clube... você já está dando demais. Mas o fato é este: você não sabe o que é dar.

            A menos que você se dê, você não dá absolutamente nada.

            Você pode dar dinheiro, mas você não é o dinheiro. A menos que você se dê, quer dizer, a menos que você dê amor, você não sabe o que é dar.

            “...E o que é receber?” Quase todo mundo pensa que sabe o que é receber. Mas Dhiresha está certa em perguntar e se expor, dizendo que ela não sabe o que é receber. Exatamente como a menos que você dê amor você não sabe o que é dar, o mesmo é verdadeiro sobre receber: a menos que você seja capaz de receber amor, você não sabe o que é receber. Você quer ser amado, mas você não pensou sobre isso: você é capaz de receber amor? Há tantas barreiras que não lhe permitem recebê-lo!

            A primeira é esta: você não se respeita; daí, quando o amor chega a você, você não se sente bastante adequado para recebê-lo. Mas você fica  em tal atribulação, que não pode nem mesmo ver um fato simples: devido a você nunca ter se aceito como você é, você jamais ter se amado... – como você pode conseguir receber o amor de alguém?

           Você sabe que você não é digno dele, mas você não quer aceitar e reconhecer essa idéia tão estúpida, que o alimentou, de que você não é digno de amor. Assim, o que fazer? Você simplesmente recusa o amor. E, para recusar o amor, você tem de encontrar desculpas.

            A primeira e a mais importante desculpa é que “isso não é amor – eis por que não o aceito”. Você não acredita que alguém o ame. Quando você mesmo não se ama, quando você não se viu – sua beleza, sua graça, sua grandiosidade –, como você pode acreditar nisso quando alguém lhe diz: “Você é belo. Vejo em seus olhos uma profundidade insondável de tremenda graça. Vejo um ritmo em seu coração, em sintonia com o universo.”.

            Você não pode acreditar em tudo isso – é demais. Você está acostumado a ser condenado, você está acostumado a ser punido, você está acostumado a ser rejeitado, você está acostumado a não ser aceito como você é – essas coisas você recebe muito facilmente.

            O amor terá um tremendo impacto em você, porque você terá de passar através de uma grande transformação antes de recebê-lo. Primeiro você tem de aceitar-se sem nenhuma culpa. Você não é um pecador como os cristãos e outras religiões continuam ensinando-lhe.

            Você não vê a estupidez da coisa toda. Alguém, lá longe no passado distante, um certo Adão, desobedeceu a Deus – o que não é um grande pecado. Na verdade, ele estava absolutamente certo em desobedecê-lo. Se alguém cometeu um pecado, foi Deus, por proibir seu filho, sua própria filha de comerem o fruto da eterna vida. Que espécie de pai? Que espécie de Deus? Que espécie de amor?

            O amor deveria exigir que Deus dissesse a Adão e Eva: “Antes de comerem qualquer outra coisa, estas duas árvores têm de ser lembradas. Comam tanto desta árvore da sabedoria e comam tanto desta árvore da vida eterna quanto queiram, de modo que vocês também esteja m no mesmo espaço de imortalidade no qual estou.”.

            Isso devia ser uma coisa simples para qualquer um que ame. Mas Deus, proibindo Adão da sabedoria, significa que quer que ele permaneça ignorante. Talvez ele tenha ciúme, medo, esteja apreensivo de que, se Adão se tornar sábio, se tornará igual a ele. Ele quer manter Adão na ignorância, de modo que ele permaneça inferior. E, se ele comesse o fruto da vida eterna, então, ele mesmo seria um Deus.

            Esse Deus que impediu Adão e Eva, devia ser muito invejoso, completamente feio, inumano, desagradável. E se todas essas coisas não são pecados, então, o que pode ser pecado? Mas as religiões andaram ensinando a vocês, judeus e cristãos e muçulmanos, que vocês estão carregando o pecado que Adão cometeu. Há um limite para se alongar mentiras por tanto tempo. Mesmo que Adão tenha cometido um pecado, você não pode carregá-lo. Você foi criado por Deus, de acordo com essas religiões, e você não está carregando divindade! Mas você está carregando a desobediência de Adão e Eva.

            Esse é o jeito Ocidental de condená-los – você é um pecador. O jeito Oriental chega à mesma conclusão, mas a partir de premissas diferentes. Eles dizem que todos estão carregados com imenso pecado e más ações, cometidas em milhões de vidas passadas. Na verdade, a carga de um cristão ou de um judeu ou de um muçulmano é bem menor. Vocês estão apenas carregando o pecado que Adão e Eva cometeram. E ele já deve ter ficado muito diluído...  – séculos após séculos. Você não é um herdeiro direto dos pecados de Adão e Eva. Ele já passou por muitos milhões de mãos; por agora, a quantidade deve ser quase homeopática.

            Mas o conceito Oriental é até mais perigoso. Você não está carregando o pecado de outra pessoa... Em primeiro lugar, você não pode carregar o pecado de outra pessoa. Seu pai comete um crime; você não pode ser enviado para a cadeia. Até mesmo o senso humano comum dirá que, se o pai cometeu o pecado ou o crime, ele tem de sofrer. O filho, ou o neto, não pode ser enviado para a forca, porque o avô cometeu um assassinato.

            Mas o conceito Oriental é muito mais perigoso e venenoso: trata-se de seu próprio pecado, que você está carregando, não aquele de Adão e Eva. E não se trata de uma pequena quantidade: ele foi crescendo com cada vida! E você viveu milhões de vidas, antes desta vida, e cada vida você cometeu muitos pecados. Eles estão todos acumulados no seu peito. A carga é himalaiana – você fica esmagado debaixo dela.

            Esta é uma estranha estratégia para destruir sua dignidade, para reduzi-lo a ser subumano. Como você pode se amar? Você pode se odiar, mas não pode se amar. Como você pode pensar que alguém seja capaz de amá-lo? É melhor rejeitar isso, porque, mais cedo ou mais tarde, a pessoa que está oferecendo a você seu amor, vai descobrir sua realidade, que é muito feia – apenas uma longa, longa carga de pecado. E, então, essa pessoa vai rejeitá-lo. Para evitar a rejeição, é melhor rejeitar o amor. Eis por que as pessoas não aceitam o amor.

            Elas desejam, elas anseiam por ele. Mas, quando chega o momento e alguém está pronto para derramar seu amor em você, você se retrai. Seu retraimento tem uma psicologia profunda. Você tem medo: isto é lindo, mas quanto vai durar? Mas cedo ou mais tarde, minha realidade será revelada. É melhor estar alerta desde o começo.

            Amor quer dizer intimidade, amor quer dizer duas pessoas chegando cada vez mais perto, o amor quer dizer dois corpos, mas uma única alma. Você tem medo: sua alma!? Uma alma de pecador, sobrecarregada com más ações de milhões de vidas...? Não! É melhor se esconder, é melhor ficar numa posição em que a pessoa que o ama o rejeite. É o medo da rejeição que não lhe permite receber amor.

            Você não pode dar amor, porque ninguém jamais lhe disse que você nasceu um ser amoroso. Eles lhe disseram: “Você nasceu em pecado!”. Você não pode amar nem pode receber amor tampouco. Isso diminuiu todas as possibilidades do seu crescimento.

            Dhiresha está dizendo: “Compreendo agora que estou apenas começando a vislumbrar essas coisas.”.

            Vocês são afortunados, porque há milhões de pessoas no mundo que ficaram completamente cegas para seus próprios condicionamentos, as cargas feias que a velha geração lhes deu. Fere tanto, que é melhor esquecer tudo sobre isso. Mas, por esquecimento, você não pode removê-lo.

            Esquecendo-se de um câncer, você não pode operá-lo. Não o reconhecendo, mantendo-o no escuro, você está tomando desnecessariamente o maior risco contra si mesmo. Ele vai continuar crescendo. Ele precisa da escuridão; ele precisa de que você não saiba nada sobre ele. Ele recobrirá todo o seu ser mais cedo ou mais tarde. E ninguém mais será responsável por isso, exceto você.

OSHO, Satyam Shivam Sunderam, #5