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O desejar é o problema

        Você tem falado sobre muitos métodos e muitas técnicas. O desejo de ter sucesso neles é muito grande. Como podemos suplantar nossa grande impaciência?

        Duas coisas a serem lembradas. Primeira: a espiritualidade não pode vir do desejo, porque o desejo é a raiz causal de toda a nossa ansiedade e angústia. E você não pode dirigir seus desejos para o reino espiritual. Mas isso acontece, é natural, porque conhecemos somente um movimento - que é o desejo. Nós desejamos as coisas do mundo. Alguém deseja riqueza, alguém deseja fama, alguém deseja prestígio e poder, ou outra coisa qualquer. Desejamos coisas do mundo e, através desse desejar, ficamos frustrados.
        E estamos fadados a ficar frustrados - é irrelevante se um desejo é preenchido ou não. Se não for preenchido, obviamente, ficaremos frustrados. Se ele for preenchido, então também, ficaremos frustrados, porque, sempre que um desejo é preenchido, o desejo é satisfeito, mas a esperança, a promessa, não é preenchida. Você pode ter tanta riqueza quanto deseja, mas não era a riqueza que era desejada realmente; outra coisa era desejada através dela - a qual nunca é preenchida.
        Você pode alcançar a riqueza, mas a esperança que estava dependurada ali - o sonho de felicidade, de bem-aventurança, de uma vida extasiada - isso não é preenchido. Se a riqueza é alcançada, então também, você se sentirá frustrado, porque a promessa não é preenchida, o sonho não é preenchido. Tudo está ali. Os meios estão ali, e o fim escapou. O fim é sempre ilusório.
        Através do desejo, a pessoa chega à profunda frustração. Quando esta frustração acontece, você começa a procurar por algo absolutamente fora deste mundo - nasce o anseio religioso, um profundo desejo religioso. Mas, novamente, você está desejando. Você se torna impaciente; você quer alcançar isto ou aquilo. A mente não mudou. O objeto do desejo é diferente: era a riqueza, agora é a meditação. Era poder e prestígio, agora é silêncio e a paz. Antes era uma coisa, agora é uma outra coisa. Mas a mente, o mecanismo, o próprio funcionamento do seu ser, é o mesmo. Você esteve desejando A, agora está desejando B - mas o desejar continua presente.
        E o desejar é o problema, não o que você deseja - este não é o problema. O que você deseja não é o problema - você desejar é o problema. Agora você está novamente desejando e você ficará frustrado do mesmo jeito. Se você alcançar, ficará frustrado. Se você não alcançar, ficará frustrado. O mesmo acontecerá a você, porque você não foi capaz de ver o pormenor, você perdeu o pormenor.
        Você não pode desejar a meditação, porque a meditação acontece somente quando não há nenhum desejo. Você não pode desejar a liberação, o nirvana, porque ela só acontece num estado sem desejo. Não se pode fazer dela um objeto de desejo. Assim, para mim e para todos aqueles que conhecem, desejar é o mundo - não que você deseje coisas mundanas. Desejar, o próprio fenômeno de desejar é o mundo.
        E, quando você deseja, a impaciência fatalmente está presente, porque a mente não quer esperar, a mente não quer adiar. Ela é impaciente. A impaciência é a sombra do desejo. Quanto mais intenso o desejo, mais impaciência existirá. E a impaciência criará perturbação. Assim, como você alcançará a meditação? O desejo criará movimento na mente e, então, o ato de desejar criará impaciência, e a impaciência o levará a mais perturbações.
        Assim, acontece - e eu observo isso diariamente - que uma pessoa que esteve vivendo uma vida muito mundana, não era comumente tão perturbada. Quando essa pessoa começa a meditar, ou a buscar a dimensão religiosa, ela se torna mais perturbada, mais do que nunca. A razão é que agora ela tem um desejo ainda mais intenso, portanto mais impaciência. E, com as coisas mundanas, as coisas eram tão reais e objetivas, que ela podia esperar por elas - elas estavam sempre a seu alcance. Agora, no reino espiritual, as coisas são tão evasivas, tão distantes... - elas nunca parecem estar ao alcance. A vida parece ser muito curta e, agora, o objeto de desejo parece ser infinito - há mais impaciência e, então, mais perturbação. E com uma mente perturbada como você pode meditar?
        Assim isso vira um enigma. Tente compreender isso. Se você está realmente frustrado e chegou a sentir que tudo o que está fora é fútil - dinheiro ou sexo ou poder ou prestígio, tudo fútil - se você chegou a esta percepção, então, uma profunda percepção também é necessária. Se essas coisas são fúteis, então, o ato de desejar é até mais fútil: você deseja e deseja e nada acontece - e seu ato de desejar cria a miséria.
        Olhe para o fato de que o ato de desejar cria miséria. Se você não deseja, não há miséria. Assim, abandone o ato de desejar. E não crie um novo desejo: simplesmente abandone o ato de desejar. Não crie um desejo espiritual. Não diga: "Agora eu estou indo em busca de Deus. Agora eu estou indo descobrir isto e aquilo. Agora, eu vou perceber a verdade.". Não crie um novo desejo. Se você criar, isso mostra que você não compreendeu sua miséria.
        Olhe para a miséria que o desejo cria. Sinta que o desejo é miséria e abandone-o. Nenhum esforço é necessário para abandoná-lo. Lembre-se: se você fizer um esforço, você criará um outro desejo. Eis por que você precisa de algum outro desejo, porque, então, você pode deixá-lo. Se algum outro desejo existir, você pode se dependurar nele. Você pode agarrar-se ao novo desejo e pode deixar o antigo. Deixar o antigo é fácil se você tem algo novo a conseguir, mas, então, você está perdendo todo o pormenor. Simplesmente deixe o desejo, porque ele é miséria; e não crie um novo desejo.

Osho, The Book of the Secrets, V2, # 52