InterNet Gratuita

                                                                                               2a edição revista e aumentada


Oláaaa... amiguinhos! Vem prá cá você também, vem...!

        Agora é moda aqui... E com a nossa vocação de achar que temos direito a tudo de graça, esse anúncio é dos mais sedutores. Aliás, o custo da InterNet para o usuário já foi causa de perda de supostas amizades, desde os tempos da BBS... Alguém ainda se lembra? Ainda era no tempo em que eu acreditava que havia amigos no mercado... Ora, bolas! Se quase não os há mais nem nas famílias, quanto mais no mercado, onde todos saem abertamente em busca de money, money, money... – já dizia a velha música.

        Nossa história mostra que nada dá certo quando é de graça, mas a nossa vocação de "povo-merecedor dentre os povos" é tamanha, que continuamos a persistir no mesmo erro. Falou que é "de graça", entramos na fila e começamos a brigar "pelo nosso direito". 

        E nada funciona por aqui, exatamente por não haver o contraponto, o privado. 

        Fico imaginando que breve teremos de mudar nossa ortografia, eliminando todas as publicações que marcaram nossa cultura na escrita miscigenada, deixando clara a origem das palavras – brevemente, teremos que ter um modo de escrever sem acentos, cedilhas e sem til... 

        Tenho certeza de que, se queremos uma globalização que elimine as nossas contradições de povo, que nos deixam sempre para trás, em tudo, teremos que pensar no gratuito que seja estimulado pela concorrência com o privado. 

        E gratuito para os que ainda não possam pagar e têm direito a tentar acompanhar a evolução dos meios de comunicação ou para as instituições públicas. 

        Ninguém nos sugere que pensemos no nosso direito de pagar... E, quando alguém toca nesse assunto, esse alguém parece ser um inimigo que quer o mal de todos. 

        Fica-me parecendo que a dignidade ainda não é um valor para nós... Ou, pelo menos, uma dignidade que seja mais ampla. 

        Sinto muito, mas eu quero pagar pelos bens e serviços de meu consumo como qualquer cidadão que tenha direitos e deveres. Se eu ganho mal, se o que faço é algo sem valor que me dificulta os ganhos, preciso repensar a minha situação, ou discutir os valores vigentes tenazmente, para ter a contrapartida do valor da minha classe reconhecido. Mas não será pedindo as coisas de graça, que chegarei a isso. Aliás, o pedinte está muito longe da sua dignidade, sabemos disso, embora teimemos em esquecê-lo. 

        Entretanto, tenho notado que o pedinte é tratado, quase sempre, com um suposto respeito, principalmente pelos que se alimentam da sua mendicância. Quem me alertou para esse modo de ver as coisas nas suas várias dimensões, foi O Amigo Osho – meu Mestre. De tantas medalhas de Honra ao Mérito que vemos distribuídas aos doadores, chegamos a perder de vista o jogo que há por trás de tudo isso. 

        Mas voltemos ao nosso ponto central, a gratuidade da InterNet.

     Ponto Um: de graça não há nada. Quando não se paga diretamente, paga-se indiretamente. Mesmo que seja só a vitória contra o suposto inimigo –  aquele que deveria ser o parceiro –, alguém, que foi seduzido inconscientemente pelo "de graça", pagou ajudando naquela vitória sobre a qual nem se pensava... 

     Ponto Dois: tudo o que temos de graça não funciona a contento, é lento, falto, quer sejam hospitais, escolas, estacionamentos, praias, tudo, tudo... nada funciona a contento. Experimentem dar um dia de condução "de graça", para ver o que acontecerá à cidade.

     Ponto Três: O Mito da Informação. Esse é o mito da pós-modernidade: tendo todos os outros sido desvendados, revelados, nosso vício de termos mitos, nossa incapacidade de sermos sós por nós mesmos, nos fez criar um mito incomprovável, para que dure e dele não se fale nada e nem se discuta sobre ele. 

        A Informação – com maiúscula, porque virou um deus, ou o Deus, sabe-se lá... – em si é uma baboseira sem tamanho... Ninguém sai do lugar, para cima, para baixo ou para os lados, apenas por que tem alguma informação, seja de que nível for. Até a fofoca, que é uma informação, precisa de algo mais para ter um mínimo de efeito. Precisa saber ser usada, senão causa muita confusão e apenas confusão e nada mais... E este é todo o segredo que esteve sempre escondido atrás de cada mito: é preciso saber usar o que se sabe e, para isso, a informação pura e simples não vale nada. 

        Esta é a parte dos mitos que jamais foi revelada: o saber usá-lo. Não basta sabê-lo, repito, é preciso saber usá-lo. "Valor de uso". Nosso valor, como, se não me engano, comentou Marcuse há muitos anos, já é "valor de troca", não de uso... 

        "E agora José?" O troca-troca de valores deu-nos esse caráter... Como vamos redescobrir o valor de uso agora? Será que os vendedores de ilusões abrirão espaços para que isso aconteça, ou temos que fortalecer cada vez mais o nosso caráter para resistir às intempéries da pós-modernidade? Na pós-modernidade, o belo é declarar a morte de tudo e se conformar... 
 
 

        Por aqui devo parar, antes de gerar apenas culpa, pois a Ciência da Alma, a Ciência da Subjetividade, ensina a não se prosseguir com as palavras quando as palavras chegam ao seu limite. Às Palavras, o que é das Palavras e à Meditação, o que é da Meditação.