Meditação não é mercadoria, Mestre não é empresário

        Coisa estranha de se ver, para quem aprendeu a construir desde a infância, é a deterioração de todas as coisas do mundo postas sobre a terra. A Terra, o planeta, vai muito bem obrigado e saberá cuidar de si dentro das leis que regem o universo. A questão está sobre a terra, não na terra. A terra também, apesar de todos os desmandos, continua fazendo nascer tudo que se planta. A deterioração começa quando começam as exigências de quem nada plantou e quer colher. Há quem ache que basta negar o dito popular para mudar a realidade. “Cada qual colhe o que planta”: vale como metáfora e como realidade também. Mas é preciso ter “olho de ver”.

        Certas coisas que se diz, parece-nos arrogância apenas, dado que ninguém cuida de fazer crescer o olho que vê. Os sistemas educacionais de todo mundo são pura obra de acomodação, de arrumação da bagunça. Por isso os resultados são tão precários intelectualmente. Parece que nos esquecemos de que a escola foi criada para a universalização do aprendizado intelectual. Tão deteriorada está a vida do homem, que nos contentamos com uma escola que ensine a sentar diante do caderno, que ensine a desenhar letras que raramente ganham sentido dentro das pessoas; a escola virou lugar das pessoas descobrirem o que antes se descobria no grupamento familiar: pentear os cabelos, lavar as mãos antes e depois das refeições, escovar os dentes, agasalhar-se, limpeza pessoal e dos objetos; seleção de materiais, a lógica da arrumação, o valor da ordem... E outras pequeninas coisas que ninguém parece mais aprender em casa.

        Antigamente, quando um aluno pobre se aproximava da escola, ele aprendia essas coisas por assimilação, pois aprendê-las era um valor que vinha de casa, mesmo da casa de pessoas que não sabiam ainda comungar de tal aprendizado. Como o desprezo pelos menos favorecidos foi um dos primeiros sinais de deterioração, o mais imediato, essa crueldade criou um valor de desprezo por tudo que fosse organizado, como se o mal viesse da ordem, não dos homens que descumpriam o ritual de crescimento do homem. A ganância tomou conta de tudo.

        A contrapartida foi um ensinamento sem luz, que tentou convencer o homem de que ele poderia ser não-egoísta. Criou-se uma falsa máscara sobre outra, levaram-nos a pensar que esta era a verdade e, sob as máscaras sobrepostas viceja a hipocrisia para encobrir a realidade do egoísmo do homem. Desvio de conduta. Todo homem é mais ou menos egoísta, mas todos somos egoístas. O egoísmo consciente é saudável, ele escondido na inconsciência é uma monstruosidade no sentido estrito da palavra – deformidade. Entretanto, todo o ensino é baseado na mentira de que o homem é solidário e altruísta. Quando saem do ensino fundamental, além das ilusões das mocinhas pobres com sonhos de moça rica dos anos cinqüenta, os jovens trazem também a revolta de seus professores que, sabendo que está tudo errado, não sabem por onde começar e começam atacando o mais fácil, o visível, o lado de fora das coisas. Grosso modo, essa é a situação geral. Em época de eleições, todas essas coisas podem ser vistas com clareza. No meio da balbúrdia, da desordem que tenta se ordenar, fica mais fácil conduzir os conflitos egoisticamente, no interesse de cada grupamento. Tornam-se inimigos os que propõem a arrumação das coisas por onde elas devem começar. Afinal, a toalha de linho branca só aparece quando a casa está construída e completamente limpa. Caso contrário, trata-se de loucura e desperdício.

        Esse preâmbulo tem o sentido não de meter a colher de pau no doce alheio, a política partidária, mas sim de repensar a inconveniência desse homem que chega tão intelectualmente desarticulado na vida adulta que, aproximando-se de um Mestre da Vida, que fala de coisas muito além do nosso circo cotidiano, esse homem começa a cometer toda sorte de ingerência ao adaptar tudo o que ouve do Mestre aos modelos que ele conhece no caos programado de sua suposta vida.

        Para ficar num só, vamos dar uma olhada em um dos tais ensinamentos sem luz, exatamente aquele que fala da “doação ao outro”. O outro passa a ser uma categoria menor de pessoa, que está sempre precisando de ajuda. Fala-se muito em “ensinar a pescar enquanto se dá o peixe”, mas essa coisa não se realiza – quero dizer, só ensinam mesmo a pescar piaba e a pegar iscas para outros pescarem. Tentaram até implantar teologias novas, dizendo que “ninguém é tão pobre que não possa dar, nem tão rico que não precise receber”, sempre no sentido da falsa elevação do “outro”. Parece uma grande teologia, um grande ensinamento, mas com coragem podemos ver que não passa de um arranjo para arrecadar-se mais – princípio ativo da Receita Federal, não da alma humana. Os resultados confirmam esta minha observação.

        Aos poucos, vamos todos virando mendigos, o que é considerado uma forma de vida inteligente nesse mundo em decadência. Com a tal da depressão então, viramos todos mendigos mesmo, sejamos ricos ou pobres. “É a hora.” – diz Fernando Pessoa. O que faremos nós, os homens do adiamento. “Pago depois.” As mocinhas e os mocinhos sonham com festas anos cinqüenta. E fazem essas festas! Os adultos cumprem o papel de depressivos, antigamente coisa de “gente rica”. O pobre sabia que não tinha tempo nem dinheiro para viver tais peripécias. Estamos tranqüilizados pelo absurdo da generalização desse estado entre todos nós. De um lado, combatemos as drogas; de outro lado, temos vasto receituário médico, abonando o uso de drogas. Crescer? Quem lá quer saber.

        Sendo nosso valor a pobreza, desvalorizamos tudo o que tem um preço e que não se dobra abaixo desse preço. Se pensarmos que ser pobres e fazer as coisas de graça é que é “estar com Deus” ou “com o divino”, por mais que lutemos contra a miséria ela será nosso berço eterno. Essa sobrecapa tem de ser vista e afastada, se queremos compreender a Vida, seu valor e seu preço.

        No caso da meditação, especificamente o que me interessa, ela está virando uma mercadoria nas mãos de pessoas ignorantes ou nas mãos de pessoas de má fé – ou se vende por preço alto ou se dá de graça. Nas comunicações, nos convites para meditação, esse cristianismo tupiniquim surge muito claramente. Despreza-se o ensinamento do Mestre sobre o preço a pagar pelas manifestações – como um grande lance de desprendimento –, abrindo-se espaços onde não se paga. Esse cristianismo no lugar indevido tem causado muitas falhas no ensinamento do Mestre. Ao mesmo tempo em que transformam a meditação numa mercadoria que se dá, pensa-se no Mestre como um empresário magnânimo – no sentido material puro e simples.

        Seria bom saberem alguns incautos, que já faz parte da literatura humana o estudo sobre a condição do homem de só valorizar aquilo que tem um preço. Basta estudar um pouco mais. Se o preço for baixo, nem os ladrões se interessam pela coisa. Se a meditação não é mercadoria, o tempo continua a ser. O espaço também. A qualidade do espaço também. Por isso se cobra com justeza, para que a própria pessoa aprenda a dar valor ao que tem valor. Trata-se de um empenho da pessoa em si mesma. Isso é algo tão novo, que precisa ser aprendido com um Mestre verdadeiro, aquele que sabe todas as implicações, causas e efeitos não-estratificados ainda.

        Popularizar a meditação não significa popularizar os ensinamentos do Mestre. Uma coisa – a meditação – vem junto da outra – o Mestre –, não dá para adaptar. Não há miscigenação possível. Não há sincretismo possível. Ou é um Mestre, ou não é nem mestre. O Mestre traz muito incômodo para a mente comum, a que quer dar um jeitinho, adaptar tudo ao seu mundinho destruído.

        Antes de difundirmos os ensinamentos de algum Mestre, precisamos estar bem a par de Suas considerações sobre todos os eventos decorrentes. Mesmo e principalmente se não concordamos com alguns. Ou estaremos fazendo uso indevido de Seus ensinamentos, tentado dar o que é para a pessoa adquirir com algum esforço próprio. O esforço próprio não está apenas no seguir algumas técnicas, também implica trocar prioridades de gasto, mudar de vida. Incomoda, mas faz crescer. Não se pode esperar que um Mestre compactue com as nossas mentiras, a principal delas a do não-egoísmo do homem, do seu desprendimento. Os aproveitadores da energia do outro e que surgem como doadores, precisam ficar alertas com o tipo de carma que estão criando, para si e ao derredor de si, em nome da verdade.

        Um Mestre como Osho, que tem tantas críticas sobre o cristianismo, não pode usar os valores do cristianismo na sua obra. Pelo menos, podemos supor assim. Ele sabe que o que não se paga já vem flácido, e não há plástica nem silicone que dêem jeito.  

Love. Samashti.

29 de maio de 2002. 

             “(…) esta é a primeira vez em toda a História que os cristãos estão se deparando com um homem que está levando a juventude, a verdadeira nata, as pessoas inteligentes, as pessoas cultas, as pessoas talentosas, para fora do curral deles. Os cristãos tentaram durante séculos, pelo mundo afora, mas  jamais foram bem-sucedidos na transformação dos cultos, dos instruídos, dos inteligentes, dos talentosos.  Eles foram bem-sucedidos somente em transformar os mendigos, os famintos, os órfãos.

 

"Transformar um órfão em cristão ou um mendigo em cristão não é muito uma conversão, porque a pessoa não está indo pelo cristianismo, ela está indo contra a sua pobreza. As pessoas que vieram a mim não vieram contra nenhuma pobreza, elas vieram pela busca espiritual, que a igreja não foi capaz de prover. Transformar um hindu em cristão, ou um judeu em cristão, ou um budista em cristão, é trabalho simples: é simplesmente mudar o prisioneiro de uma prisão para uma outra prisão.  

"Eu os tirei de dentro da prisão para o céu aberto.

"Não tenho nenhuma prisão para lhes dar.”  

OSHO. Socrates, Poisoned Again After 25 Centuries, # 4, Q 1