Histórias de Artistas com HIV
 revelam que presença da morte leva à urgência produtiva
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Anabela Paiva

         Para alguns artistas e persornalidades portadores da AIDS, assumir a doença publicamente faz parte de sua obra. O gaúcho Caio Fernando Abreu, falecido semana passada, dizia que não era aidético, era escritor. Mas é certo que sua atitude corajosa em falar da doença tornou-se parte de sua identidade artística. A AIDS já era um tema de seus trabalhos, ligados à vida urbana, muito antes do diagnóstico médico. Mas, com a publicação no jornal O ESTADO DE S. PAULO, em 1994, das suas Cartas para além dos muros, em que revelou a contaminação pelo HIV, Caio criou mais que uma peça literária. Escritas com sinceridade e lucidez, as Cartas combatiam o preconceito pelo simples fato de não temê-lo. “Gosto sempre do mistério, mas mais da verdade. Não vejo nenhuma razão para esconder. Nem sinto culpa, vergonha ou medo.” – escreveu. “Era algo ditado pela necessidade inescapável de se expressar, ainda mais em um escritor tão pessoal quanto ele.” – diz o amigo e diretor teatral Luiz Arthur Nunes.         Alguns dos primeiros a falarem publicamente da AIDS foram o músico Chico Mário, que morreu em 1988, e seu irmão Herbert de Souza, o Betinho. Verdade é que eles tiveram uma vantagem, pondera o ator Marcos Breda, um amigo de Caio: “Uma pessoa que adquiriu o vírus através da transfusão de sangue é socialmente perdoada, o que não é o caso de quem adquiriu pelo homossexualismo.”. O cantor e compositor Cazuza se expôs ao estigma da AIDS em ampla reportagem publicada em 1989, na revista VEJA. “Eu não queria. Tinha muito medo do preconceito.” – lembra a mãe Lucinha Araújo, que fundou a SOCIEDADE VIVA CAZUZA. Na época, o compositor argumentou: “Como vou poder cantar Brasil, mostra a tua cara se me esconder num momento desses?”. O filho estava certo. “Ele nunca foi tão amado como nesta fase. Às vezes, reclamava do excesso de solidariedade, das pessoas que apertavam o braço dele de um jeito diferente.” – conta. Num momento de irritação, Cazuza compôs o Blues da piedade: “Vamos pedir piedade (...) / Pra essa gente careta e covarde.”.

         Cazuza foi um exemplo da produtividade de que um portador do vírus é capaz. Entre o diagnóstico, em 1987, e a morte, em julho de 1990, compôs mais de 40 músicas, lançou o disco Ideologia e emplacou duas canções na novela Vale Tudo. “Ele paro de falar dos seus amores dasatinados e passou a pensar no país. Sentiu que o tempo era curto. Nunca produziu tanto.” – lembra Lucinha. O frenesi produtivo também tomou conto de Caio. “Ele sempre trabalhou muito, e com a AIDS acelerou. Tinha pressa de colocar tudo no papel.” – conta a amiga Sandra La Porta.

         O coreógrafo Alziro Azevedo, que morreu em dezembro de 1994, poderia ter pedido aposentadoria como professor universitário em Porto Alegre. Após saber da contaminação, em 1990, fez três espetáculos no Rio e outros no Sul. “Ele deu aula até não ter mais condições físicas e, como coreógrafo, não deixava de meter a mão na massa, serrar madeira. Os elencos nem sabiam da AIDS.” – lembra Luiz Arthur, para quem sempre trabalhava. O escultor Maurício Bentes, que veio a público revelar sua condição de aidético esta semana, embora esteja impossibilitado de esculpir, não pára de ter idéias de novos projetos, como a de um desfile de escola de samba que teria como enredo a AIDS. “Ele está querendo fazer uma nova exposição.” – conta a amiga e astróloga Graça Medeiros.

         Fundador da ESCOLA LACANIANA DE PSICANÁLISE, José Nazar usa a experiência adquirida no acompanhamento de cerca de 50 casos de aidéticos para explicar que parte dos indivíduos, ao invés de entrar em depressão com o choque do diagnóstico, “emergem como soldados da luta contra a doença”. Compelido pela consciência de que já não é dono do tempo, o doente abandona velhos vícios da procrastinação e passa a se preocupar em deixar uma obra. É o caso de seu cliente mais famoso, o sociólogo Betinho. “Ele deixou de ser o irmão do Henfil e o Henfil passou a ser irmão dele. Ganhou dimensão heróica.” – opina Nazar, que garante que o portador do vírus que se envolve em projetos profissionais costuma ter sobrevida maior do que os que entram em depressão.

         No entanto, às vezes a dedicação ao trabalho é tão intensa que ameaça a saúde do artista. Diagnosticado como soropositivo aos 24 anos, o falecido cantor Guido Brunini não descansou enquanto não conseguiu gravar seu primeiro CD; saiu da gravação direto para o hospital. Durante o show de lançamento, já estava muito doente, mas arranjava forças. “Ele saía do palco e a febre vinha. Saía arrasado, mas hora de cantar conseguia superar tudo.” – conta a mãe, Liana Brunini.

         O ator Rubens Corrêa, que morreu no início deste ano, também foi possuído por amor ao palco. “Ele passou a aceitar um convite em cima do outro, viajava o tempo todo com a sua peça, Artaud. Uma vez, passou a tarde fazendo uma transfusão de sangue para poder subir ao palco.” – conta o sócio e grande amigo, o diretor Ivan Albuquerque. O esforço acabou impedindo a realização de um de seus projetos, a montagem de Seria Cômico se Não Fosse Sério, do suíço Durrenmatt. Com pneumonia, Rubens chamou Luiz Arthur Nunes, que iria  dirigir o espetáculo, e o produtor Edmundo Lippe. “Ele nos contou que estava com AIDS, mas que sua médica achava que ele iria se restabelecer logo e que poderia fazer o trabalho.” – lembra Arthur. Os dois concordaram em adiar a montagem e ofereceram um ator substituto para os dias em que se sentisse mal. O projeto nunca chegou a se realizar. “Eu não tinha coragem de voltar atrás. Ele tinha tanta vontade de trabalhar...” – lembra o produtor, que pretende, montar a este ano, com Cláudio Correia e Castro no lugar de Rubens.

         A clareza de Caio e Maurício ainda não é a regra. Rubens nunca escondeu a AIDS dos amigos, mas sua condição só foi revelada após sua morte, por colegas como Ivan e Fernanda Montenegro. “Esconder seria reforçar o preconceito.” – explica Ivan, que conta que o ator temia revelar a doença e perder a cobertura do seguro saúde.

         Outra razão comum para o silêncio, conta o psicanalista Nazar, é “não magoar a família”. Com o coreógrafo Alziro foi assim. Em geral, reclama o dramaturgo Flávio Marinho, “fica uma situação hipócrita, os amigos fingindo que não estão vendo”. As razões também podem ser profissionais. Guido Brunini tinha medo de revelar ter AIDS por medo de que a gravadora deixasse de investir em sua iniciante carreira de cantor. Estava certo. Pronto  no master, o CD Guido Brunini nunca foi lançado comercialmente pela PolyGram. “Liguei para lá, chorei, pedi, mas só consegui que fizessem mil discos, que comprei e vendi para amigos.” – conta Liana, a mãe do artista.
 
 

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JORNAL DO BRASIL
domingo, 3/3/1996 – p. 5 
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