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DA LUXÚRIA A DEUS Há três níveis
de sexo e pretendo falar sobre eles agora. O primeiro
nível de sexo é o grosseiro. Por exemplo, um homem que vai a uma
prostituta. A experiência que ele obtém lá, não pode ser mais
profunda do que a experiência física. Uma prostituta pode vender seu
corpo, mas não seu coração e, certamente, não existe nenhum meio de
se vender a alma. Nesse nível,
os corpos se encontram – como num estupro. Num estupro, não há
encontro de corações ou almas; o estupro acontece apenas no nível físico.
Não existe jeito de violar uma alma; a experiência do estupro é
unicamente física. A experiência
primária de sexo é no nível fisiológico, mas aqueles que se detêm
nele não chegam nunca à completa experiência do sexo. Eles não podem
nunca conhecer as profundezas sobre as quais tenho falado. Atualmente,
muitas pessoas estão estacionadas no nível físico. Em relação
a isso, é importante saber que em países onde os casamentos acontecem
sem amor, o sexo fica estagnado no nível físico. Nunca pode progredir
além disso. Esses casamentos podem ser de dois corpos, mas nunca de
duas almas. O amor só pode existir entre duas almas. O casamento pode
ter um significado mais profundo se ele acontece por amor, mas os
casamentos que acontecem em função dos cálculos dos eruditos
orientais e dos astrólogos, ou a partir das considerações de casta ou
de credo ou de dinheiro, nunca podem ir mais fundo do que o nível físico. Em tais casamentos, o sexo entre marido e mulher não toca as camadas mais profundas; torna-se meramente uma rotina mecânica. O ato é simplesmente repetido com freqüência e torna-se viciado; nada mais acontece, e então os participantes tornam-se cada vez mais entediados. Há muito pouca diferença entre ir a uma prostituta e se casar sem amor. Você compra uma prostituta por uma noite, enquanto adquire uma esposa pela vida inteira; essa é a única diferença. Quando não há amor, uma compra está sendo feita – ou você está contratando uma mulher por uma noite ou está fazendo arranjos vitalícios. É claro que por causa da associação diária, um tipo de relacionamento acontece – e chamamos isso de amor. Isso não é amor; amor é uma outra coisa completamente diferente. Esses casamentos são simplesmente do corpo, e então o relacionamento nunca pode ir além do físico. Outro nível
é o psicológico – da mente, do coração. O casamento de pessoas que
se apaixonam e então se casam vai um pouco mais adiante, é um pouco
mais profundo do que os casamentos no nível físico. Eles chegam ao
coração; chegam à profundidade psicológica, mas por causa da
monotonia retrocedem para o nível físico a cada dia. A instituição
do casamento que se desenvolveu no Ocidente nestes últimos duzentos
anos está nesse nível. E devido a isso, suas sociedades são disjuntas
e devassas. A razão
disso é que não se pode confiar na mente. Hoje a mente deseja uma
coisa; amanhã pedirá outra. Ela quer uma coisa de manhã e uma outra
à noite. O que ela sente agora é totalmente diferente do que sentiu
alguns momentos atrás. (...) A mente é
muito mutável e, dessa forma, as sociedades que querem estabilizar a
vida familiar, não permitem que os casamentos atinjam o nível psicológico,
elas se esforçam para deter o casamento no nível físico.
A estabilidade é possível no nível físico, mas no psicológico é
muito difícil. A experiência sexual é mais profunda e mais sutil no nível
mental e, por conseguinte, a experiência no Ocidente tem sido mais
profunda do que no Oriente. Os psicólogos do Ocidente, de Freud a Jung,
têm escrito sobre este segundo estágio do sexo, sobre o nível psicológico.
Mas o sexo
sobre o qual estou falando é do terceiro nível, o qual até agora, não
foi compreendido no Oriente nem no Ocidente. Esse terceiro nível de
sexo é o nível espiritual. Como o corpo fica inerte, há um tipo de estabilidade no nível físico. Há também um tipo de estabilidade no nível espiritual, porque não há nenhuma mudança nesse nível: nele, tudo é calmo; nele, tudo é eterno. Entre esses dois estágios, existe o nível psicológico. Ele é inconstante, como a memória. Um homem e uma mulher que conseguem se encontrar no nível espiritual, que conseguem se unir espiritualmente – ainda que uma vez – sentem que se uniram pela eternidade. Há uma fluidez profunda; a atemporalidade e o êxtase puro são o dote do casamento. (...) O
relacionamento entre marido e mulher é o início de uma jornada e não
o fim. E lembre-se: é por ser uma jornada, que maridos e esposas estão
sempre num estado de tensão. Uma jornada é sempre cansativa; a paz só
é encontrada na chegada. Maridos e esposas nunca estão calmos, porque
estão sempre a caminho, sempre na estrada – e a maior parte das
pessoas perecem no caminho, nunca chegam à meta. Por causa disso, há
sempre um estado de conflito entre maridos e esposas; há uma luta
constante. E é isso o que chamamos de “amor”. Infelizmente,
nem o marido nem a mulher compreendem a causa real da tensão, da luta.
Cada um pensa que escolheu o parceiro errado. O marido pensa que tudo
seria melhor se tivesse se casado com outra mulher, a esposa pensa que
tudo provavelmente estaria bem se tivesse se casado com outro homem.
Quero lhes dizer que essa é a experiência de todos os casais do mundo.
Se lhes derem a chance de mudar de parceiro, a situação não mudará
nem um pouco. Será a mesma coisa que mudar de ombro quando se está
carregando um caixão para o cemitério: você se sente aliviado por um
tempo, então, nota que o peso novamente se tornou o mesmo. A experiência
no Ocidente, onde o divórcio é desenfreado, é que a nova esposa, em
pouco tempo, mostra-se exatamente como a anterior – e em duas semanas,
o novo marido também acaba sendo igual ao primeiro. A razão não pode
ser encontrada na superfície, mas num nível mais profundo. A razão não
tem nada a ver com o indivíduo, com o homem ou a mulher; a razão é
que o casamento é uma jornada, um processo. O casamento não é o alvo,
não é o objetivo. Outro amigo me enviou uma mensagem dizendo que nenhum santo ou guru fala sobre sexo. Escreveu que a alta estima que tinha por mim, diminuiu por causa das minhas palestras sobre sexo. (...) Gostaria de dizer a ele que não há razão nenhuma para ficar desapontado comigo. Antes de mais nada, se você alguma vez me respeitou, isso foi um erro seu. Por que teve necessidade de me honrar? Qual foi o seu motivo? Quando eu pedi o seu respeito? Se você me tinha respeito, esse erro foi seu; se não está mais tão a meu favor, esse privilégio é seu. (...) Não sou nenhum mahatma, nem estou disposto a ser um. Se eu tivesse o mais leve desejo de me tornar um mahatma ou um guru, nunca teria selecionado este assunto, em primeiro lugar. Um homem não pode jamais se tornar um mahatma se não for muito sagaz na seleção dos tópicos para suas palestras. Eu nunca fui um mahatma, não sou um mahatma e certamente não quero tornar-me um mahatma – esse desejo em si é uma projeção de um ego sutil, refinado. Sou um homem, e isso é suficientemente bom para mim. Não é suficiente ser apenas um homem? Um homem não pode ser feliz sem estar sendo carregado nos ombros de outros homens, sem se impor aos outros, sem adquirir poder de uma forma ou de outra? Um homem não pode ser feliz simplesmente sendo um homem? Seja qual for a posição na qual me encontro estou feliz e satisfeito. (...) Pelo menos
uma pessoa está desiludida; pelo menos um homem ficou sabendo que eu não
sou um grande homem. É um grande alívio a desilusão desse homem. Ele
escreveu para me tentar com o mahatmatismo; ele disse que eu
poderia me tornar um grande guru se parasse de falar sobre tais
assuntos. Até agora, os mahatmas e gurus têm sido enganados por
tais abordagens e, como resultado, essas grandes, mas frágeis, pessoas
não falaram sobre assuntos que poderiam se tornar desastrosos para suas
condições de gurus e de mahatmas. Na preocupação de salvar
seus próprios tronos, nunca se importaram com quantas pessoas estavam
influenciando danosamente. Não estou
interessado em nenhum alto pedestal. Não sonho com isso, nem tenho essa
intenção. (...) Confio e acredito que o que temos falado os conduzirá
ao caminho apropriado para quebrar aquelas barreiras que se erguem no
curso da evolução de um homem autêntico. Um caminho é visível; a
transformação gradual da sua luxúria é possível. Seu sexo pode
tornar-se seu samadhi. Agora, como
você é hoje, você é a sua luxúria; não é a sua alma. Vocês também
podem tornar-se almas, mas só pela transformação gradual da
sexualidade. Só então a jornada para Deus poderá começar.
(...) Eu disse
que vocês devem se esforçar por uma contínua conscientização do
vislumbre do samadhi durante o coito. Vocês devem tentar
apoderar-se desse ponto, esse vislumbre do samadhi, o qual
lampeja como um relâmpago no meio da relação sexual, o qual cintila
por um segundo como um fogo-fátuo e, então, se desvanece. O esforço
deve ser para conhecê-lo, para familiarizar-se com ele, para mantê-lo.
Se você puder fazer esse contato plenamente, pelo menos uma vez, nesse
momento você saberá que não é um corpo, que vocês são incorpóreos.
Por essa fração de tempo você não é um corpo; nesse momento você
é transformado em outra coisa: o corpo é deixado para trás e você se
torna a alma, o eu real. Se tiver um vislumbre dessa glória, pelo menos
uma vez, você poderá persegui-la, através de dhyana, meditação,
e estabelecer um relacionamento profundo e permanente com ela. Então, o
caminho para o samadhi será seu. E quando isso se tornar parte
de seu entendimento, parte de seu conhecimento e de sua vida, não haverá
mais espaço para a luxúria. (...) Nós fomos
procriados irreligiosamente. Recebemos a pena da irreligiosidade desde o
nascimento e morremos na irreligião. E no intervalo, da manhã à
noite, do nascimento à morte, durante toda a extensão de nossas vidas,
falamos e falamos sobre religião. Nesse homem superior, não haverá
palavras inúteis ou discussões vazias sobre religião, porque a religião
será seu modo de viver. Falamos sobre coisas que não fazem parte de
nossas vidas, e não falamos sobre as coisas que fazem parte. Não
falamos sobre sexo, porque ele é o nosso modo de viver, mas fracassamos
falando sobre Deus. Na verdade, mantemo-nos satisfeitos falando sobre
coisas que não podemos atingir nem obter. (...) Um sexo
espiritual pode surgir. Uma nova vida para a humanidade pode começar.
Durante os últimos quatro dias, falei a vocês sobre a possibilidade de
se chegar a um novo nível de existência espiritual. Vocês ouviram
minhas palestras pacientemente e com muito amor, embora ouvir tais
discursos tranqüilamente deva ter sido difícil; vocês devem ter se
sentido embaraçados algumas vezes. (...) Um amigo
veio me ver e expressou seu medo de que alguns homens, sentindo que tal
assunto não deveria ser comentado, pudessem se levantar e provocar um
clamor para as palestras pararem. Ele sentia que algumas pessoas
poderiam protestar intensa e ruidosamente contra a discussão de tal tópico
em público. Eu disse a ele que o mundo seria melhor se houvesse pessoas
tão corajosas ao redor. Onde você encontrará um homem tão corajoso a
ponto de se levantar diante de uma reunião pública e pedir ao orador
que pare seu discurso? Se uma pessoa tão corajosa existisse neste país,
então, as palestras loquazes e absurdas pronunciadas das altas
plataformas, por uma longa série de homens tolos, teriam cessado há
muito tempo atrás. Mas não cessaram ainda e nunca cessarão. O tempo
todo estive esperando por algum homem corajoso que se levantasse e me
pedisse para interromper minhas palestras. Então, eu poderia discutir o
assunto com ele em detalhes. Teria sido uma fonte de grande prazer para
mim. Assim,
mesmo tais palestras sobre tal tópico – a despeito de muitos amigos
terem ficado com medo de que alguém pudesse se levantar para protestar,
de que alguém pudesse criar pandemônio aqui –, vocês ouviram
silenciosamente. Todos vocês são muito amáveis. Estou grato pela
paciente e pacífica atenção que tiveram. Concluindo,
do fundo do meu coração, desejo que a luxúria interior de cada um de
nós possa tornar-se uma escada pela qual se possa chegar ao templo do
amor; que o sexo dentro de cada um de nós possa tornar-se um veículo
para a supraconsciência. E,
finalmente, inclino-me diante do Supremo que reina em todos nós. Por favor,
aceitem meus respeitos. OSHO,
Do Sexo à Supraconsciência, # 5
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