O medo é o inimigo
Um meditador que seja vulnerável, passivo, aberto e receptivo, sente que
com essas características ele sofre a influência do entorno, do não-meditativo,
do negativo, das vibrações tensas. Por favor, explique como ele pode preservar
sua psique vulnerável das vibrações nocivas.
O inimigo existe ali, porque você está protegendo-se contra ele. O
inimigo existe ali, porque você não está aberto. Se você estiver aberto, então,
toda a existência é amistosa – ela não pode ser de outro modo. Realmente
você nem mesmo sentirá aquilo como amistoso – simplesmente é amistoso. Não
há nenhum sentimento nem de que seja amistoso, porque esse sentimento pode
existir somente com o sentimento contrário de inimizade.
Deixe-me dizer assim: se você é vulnerável, significa que você está
pronto para viver na insegurança. Lá no fundo, quer dizer que você está
pronto até para morrer. Você não resistirá, você não se oporá, você não
ficará parado no meio do caminho. Se vier a morte, não haverá nenhuma resistência.
Você simplesmente permitirá que ela aconteça. Você aceita a existência em
sua totalidade. Então, como você pode senti-la como morte?
Se você negar, então, você poderá senti-la como o inimigo. Se você não
negar, como você pode senti-la como o inimigo? O inimigo é criado pela sua
negação. A morte não pode lhe causar dano, porque o dano é sua interpretação.
Agora, mais ninguém pode causar-lhe dano – isso tornou-se impossível.
Este é o segredo do ensinamento taoísta. O ensinamento básico de Lao
Tzu é este: se você aceita, toda a existência está com você. Não pode ser
de outro modo. Se você nega, você cria o inimigo. Quanto mais você nega,
quanto mais você se defende, quanto mais você se protege, mais inimigos são
criados. Os inimigos são criações nossas. Eles não existem lá fora; eles
existem na sua interpretação.
Uma vez que você possa compreender isso, então, esta questão jamais
pode surgir. Você não pode dizer: “Eu sou meditativo, eu estou vulnerável,
aberto. Então, como eu posso me defender contra vibrações negativas ao meu
redor?”. Nada mais pode ser negativo agora.
O que “o negativo” significa? O
negativo significa aquilo que você quer negar, aquilo que você não quer
aceitar, aquilo que você pensa ser danoso. Então, você não está aberto, então,
você não está num estado meditativo.
Esta pergunta surge somente intelectualmente, esta não é uma questão
sentida. Você não provou da meditação, você não a conheceu. Você está
simplesmente pensando e, esse ato de pensar é uma pura suposição. Você supõe:
“Se eu meditar e ficar aberta, então, eu estarei em insegurança. As vibrações
entrarão em mim e elas serão nocivas. Então, como vou me defender? Esta é
uma questão suposta. Não me tragam questões supostas. Elas são fúteis,
irrelevantes.
Medite, torne-se aberto e, depois, você nunca mais trará esta questão
a mim, porque, na própria abertura, o negativo terá desaparecido. Então, nada
é negativo. E, se você pensa que algo é negativo, você não pode se tornar
aberto. O próprio medo do negativo criará o fechamento. Você ficará fechado
– você não poderá se abrir. O próprio medo de que algo possa causar-lhe
dano... Como você pode se tornar vulnerável? Eis por que eu enfatizo o fato de
que a menos que o medo da morte desapareça de você, você não pode se tornar
vulnerável, você não pode estar aberto. Você permanecerá fechado na sua própria
mente, no seu próprio encarceramento.
Mas você não pode continuar supondo coisas. E, seja o que for que você
suponha, estará errado, porque a mente não tem condições de saber qualquer
coisa sobre meditação, ela não pode penetrar nesse reino. Quando ela cessa
completamente, a meditação acontece. Assim, você não pode supor nada, você
não pode pensar sobre ela. Ou você sabe, ou você não sabe – você não
pode pensar sobre ela.
Abra-se – e no próprio ato de abrir-se, tudo o que é negativo na
existência, desaparece. Nem a morte é negativa então. Nada é negativo. Seu
medo cria a negatividade. Lá no fundo você está com medo; por causa desse
medo você toma medidas de segurança. Contra a essas medidas de segurança, o
inimigo existe.
Olhe para este fato – que você cria o inimigo. A existência não é
sua inimiga. Como poderia ser? Você pertence a ela, você é apenas uma parte
dela, uma parte orgânica. Como a existência pode ser sua inimiga? Você é a
existência. Você não está separado; não nenhum intervalo entre você e a
existência.
Sempre que você sente que o negativo, a morte, o inimigo, o ódio, estão
presentes e, que você está aberto, desprotegido, você sente que a existência
o destruirá, você sente que tem de se defender. E não somente se defender –
porque o melhor meio de se defender é ser agressivo, ofender. Você não pode
ser simplesmente defensivo. Quando você sente que tem de se defender, você se
torna ofensivo, porque ofender, ser agressivo, é o melhor caminho para se
defender.
O medo cria o inimigo e, depois, o inimigo cria a defesa e, depois, a
defesa cria a ofensa. Você se torna violento. Você está constantemente em
guarda. Você está contra todo mundo. Este ponto tem de ser compreendido: que,
se você tem medo, você é contra todo mundo. Os graus diferem, mas então, seu
inimigo e seu amigo são ambos seus inimigos. O amigo é um pouco menos, eis
tudo. Então, seu marido, ou sua esposa, é também seu inimigo, sua inimiga.
Você fez um arranjo, eis tudo. Você se tornou ajustado. Ou pode ser que ambos
tenham um grande inimigo comum e, contra esse inimigo comum e enorme, vocês
dois tenham ficado juntos, vocês dois tenham se tornado cúmplices, mas a
inimizade está lá.
Se você está fechado, toda a existência é sua inimiga. Não que ela
seja. Ela parece para você, que é inimiga. Quando você está aberto, toda a
existência se torna sua amiga. Agora, quando você está fechado, mesmo o amigo
é o inimigo. Não pode ser de outro modo. Lá no fundo, você tem medo de seu
amigo também.
Em algum lugar, Henry Thoreau ou outra pessoa escreveu que orava assim a
Deus: “Eu cuidarei de meus inimigos, mas o Senhor tome conta de mim em relação
a meus amigos. Eu lutarei com meus inimigos, mas o Senhor proteja-me dos meus
amigos.”.
Só na superfície é amizade; lá no fundo é inimizade. Sua amizade
pode ser apenas uma fachada para esconder o inimigo. Se você está fechado, você
pode criar somente o inimigo, porque, quando você está aberto, somente então,
o amigo é revelado. Quando você está totalmente aberto para alguém, a
amizade aconteceu. Ela não pode acontecer de nenhum outro modo.
Como você pode amar, quando você está fechado? Você vive na sua prisão,
eu vivo na minha prisão e, sempre que nos encontramos, somente as paredes da
prisão tocam uma na outra - e nós
ficamos escondidos atrás delas. Nós andamos dentro de nossas cápsulas: as cápsulas
tocam-se uma na outra, mas lá no fundo permanecemos isolados.
Mesmo ao fazer amor, quando os corpos já entraram um no outro, vocês não
entraram. Somente os corpos estão se encontrando; vocês permanecem imóveis
cada um em sua cápsula, na sua célula. Vocês estão apenas se enganando
mutuamente, que há comunhão. Mesmo no sexo, que é o relacionamento mais
profundo, a comunhão não está presente. Ela
não pode acontecer, você está fechado. O amor se torna uma
impossibilidade. E esta é a razão – você tem medo.
Assim, não faça tantas perguntas; não traga falsas questões. Se você
tivesse conhecido a abertura, você não poderia sentir que algo pode ser nocivo
para você. Então, nada mais seria nocivo. Eis por que eu digo até que a morte
é uma bênção. Sua abordagem se torna diferente. Agora, para onde quer que
você olhe, você olha com um coração aberto – essa abertura de coração
muda a qualidade de tudo. E você não pode sentir que algo vá ser nocivo; você
não pode perguntar como se defender – não há necessidade. A necessidade
surge por que você está fechado.
Osho,
The Book of the Secrets, V2, # 54